Há uns tempos para cá, assistimos a uma grande preocupação para com as crianças e os menores, em risco ou já em estado de exclusão social e também as que vivem em instituições. Preocupação dos poderes públicos e de diversas associações. Ainda bem, pois se, de uma maneira inconsciente, ou talvez não, se fecham as portas a novos nascimentos e se deixam degradar, sem prevenção para que tal não aconteça, muitos dos já nascidos, não restará ao país senão fechar portas ao futuro e aguardar que alguém venha depois apagar a luz.
Milhares de crianças vivem na rua, deixaram a escola, não têm família que as cuide e as eduque, crescem na aprendizagem diária de caminhos sem sentido e de exclusão, são exploradas por adultos que deixaram endurecer o coração. Muitas destas crianças já nem querem outra vida, a tal modo as atingiu, por dentro, o vazio onde deixou de haver lugar para o sonho e para a esperança.
São estas, certamente, as que necessitam e merecem maior cuidado e acção no que ainda é possível, por parte de todos, mas muito especialmente dos serviços estatais, dado que as causas de tão preocupante situação, são sociais e públicas, de intervenção inconsequente por parte do cidadão comum, e a exigir medidas que vão além dos paliativos usuais, bons para relatórios, mas sem que atinjam a raiz do mal.
Acontece, porém, que os referidos serviços, com uma frequência que se vai tornando obsessiva, quase fogem da rua, para se preocuparem mais com frequentes inspecções e vistorias a instituições privadas, aí onde as crianças são amadas e se preparam seriamente para a vida, do que em aprenderem e colherem experiências e o saberes para penetrar com respeito neste mundo complexo e ir ao encontro dos pais e de quem se aproveita das crianças, debelando no possível, a desgraça das que já só querem a rua.
As leis e as portarias de protecção são feitas de cima para baixo; a bateria de técnicas inspectoras aprendeu a cassete imposta por quem vive noutro mundo e nunca sujou as mãos, nem falou ou viveu, ainda que só umas horas, com crianças que nasceram e cresceram na dor; os inquéritos pretendem somente resposta aos quadradinhos que os inteligentes sonharam, desenharam e decretaram; a obsessão técnica e das técnicas torna-se irrespeitosa e ridícula, como se quem não fez curso nem é doutor, nada saiba de educação e recuperação de crianças degradadas e filhas da degradação. E, tratando-se de instituições a cargo de gente com ideal e convicções que dá a vida por esta causa, desconhece-se que a educação, toda a educação, mormente de gente com especiais carências e problemas ou é “coisa do coração”, ou nunca logrará qualquer resultado.
Quem duvida que a família normal é o melhor espaço educativo para as crianças? Quem nega que a adopção com garantias é uma expressão louvável de solidariedade? Mas, mesmo quando assim não é, quem pode tirar valor à instituição em que o amor é verdadeiro, a relação é humanizante, o futuro se prepara com alicerces, a dedicação não depende dos horários de serviço, as crianças não são coisas que se atiram para ali, nem cobaias de doutoras diplomadas, frequentemente alheias à vida concreta e real?
A estratégia do cuco que, nos ninhos que outros fazem choca os ovos que outros põem, mas canta sempre, não pode ser a da política social. Os problemas dos pobres, sejam eles adultos ou crianças, não se resolvem de cima para baixo, provocando pressões desgastantes, gastando tempo precioso, pondo em causa caminhos andados com seriedade, generosidade e competência, contra instituições indispensáveis, com provas dadas e uma história respeitável. Há que discutir tudo isto e denunciar caminhos esburacados. As crianças querem quem as ame, as compreenda, sofra e se alegre com elas. Só teorias, não aquecem corações nem abrem caminhos, mesmo sendo válidas.
