Pseudo-restauros são de evitar

Património cultural e artístico da Igreja exige mais cuidados

As dioceses portuguesas deveriam ter um gabinete de património com técnicos qualificados para “evitar os pseudo-restauros” que, muitas vezes, “fazem perder irremediavelmente obras de arte da Igreja” – disse à Agência ECCLESIA Maria de Fátima Eusébio, da Comissão organizadora do III Colóquio “A salvaguarda dos bens culturais da Igreja”, realizado em Viseu, nos dias 20 e 26 deste mês. E adianta que urge criar “uma atitude de prevenção de todos os factores de risco para o património”, porque só assim se pode impedir a degradação e “apostar na conservação preventiva” – referiu aquela professora da Universidade Católica Portuguesa.

Reconheceu que o “aconselhamento técnico” deveria ser uma prioridade, mas logo acrescentou que tal não acontece em “muitos casos”. Disse, ainda, que essa seria uma maneira de evitar os pseudo- restauros que, sublinhou Fátima Eusébio, “são uma constante”. Se estas más recuperações fossem “mediatizadas” eram mais do que os “furtos das obras” – denunciou.

Os assaltos de obras de arte são referidos na comunicação social e o enfoque colocado na protecção dos bens culturais da Igreja resume-se à “vertente da segurança” contra os “amigos do alheio”. Para Fátima Eusébio, no entanto, os maus restauros são também “uma forma de roubarmos o património”.

A Igreja é possuidora de 70 a 80 por cento do património nacional, tendo a particularidade de, “para além do seu valor artístico e histórico, possuir também valor cultural”. Um valor incalculável que merece “um aconselhamento”. Essa deveria ser a prática geral, mas muitas vezes as recuperações são feitas “ao gosto das populações ou por um habilidoso da terra”— alerta aquela docente. Para alterar a situação, a Igreja deveria “ter os seus próprios técnicos”. Na sua opinião, é fundamental sensibilizar todos os que directa ou indirectamente lidam com o património, nomeadamente os sacerdotes, as comissões fabriqueiras, as irmandades e os zeladores, desde as senhoras da limpeza às floristas, passando pelo sacristão que acende as velas.

A investigadora realçou que a Igreja tem bens muito preciosos mas que “são desconhecidos”, uma vez que há “poucas dioceses com inven-tários feitos”. Em relação à Diocese de Beja, a situação é diferente e recebeu palavras elogiosas: “é a timoneira porque está muito avan-çada em relação às outras”. Beja tem o seu “inventário científico praticamente feito” o que lhe permitiu “dar o salto para outro patamar: várias exposições” – finalizou.