O Leitor pergunta As diferenças fundamentais entre uma Bíblia católica e uma protestante prende-se essencialmente com a questão da cânon, isto é, a questão de saber quais os livros que são ou não Palavra de Deus, sobretudo em relação ao Antigo Testamento.Vamos partir da origem da expressão cânon.
1. Na língua hebraica o termo kanê indicava inicialmente a cana dos cereais. Mais tarde passou a indicar o bastão usado como unidade de medida, ou até o braço da balança, os braços dos candeeiros… Na língua grega prevalece o significado figurado, ou seja, de bastão de medir. A partir do séc. IV, o termo cânon é empregado na Igreja para indicar as normas externas, eclesiais, canónicas como são ditas. Daqui vem o facto de ele ser usado em relação aos livros da Bíblia.
2. Assim, encontramos já nos primeiros tempos da igreja estas denominações: cânon, livro canónico, mas também livro protocanónico, livro deuterocanónico.
– Cânon: indica o elenco dos livros inspirados; para a igreja católica são 73 livros, 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento.
– Canónico: especifica o livro que pertence ao Cânon bíblico.
– Protocanónico (prôtos: primeiro): é o livro que sempre e em todas as comunidades foi considerado canónico.
– Deuterocanónico (deuteros: segundo): a partir do séc. XVI, é o livro que teve dificuldades na admissão no cânon. Anteriormente usavam-se outros termos: homologouménoi (unanimemente aceites) para os protocanónicos e antilegoménoi (contrastados) para os deuterocanónicos.
Podemos já indicar quais são os livros deuterocanónicos: são 7 de Antigo Testamento e igualmente 7 no Novo Testamento.
Antigo Testamento: Tobias, Judite, 1-2 Macabeus, Baruc, Eclesiástico (Sirácida), Sabedoria e algumas partes de Ester e Daniel.
Novo Testamento: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2-3 João, Judas, Apocalipse.
3. No vocabulário relativo ao “cânon bíblico” merece uma referência a expressão apócrifo e pseudo-epígrafo.
Os católicos atribuem o nome de livro apócrifo (apokryptein: esconder) aos escritos judaicos ou cristãos que em certa medida reivindicaram a sua “canonicidade” por causa da sua origem. De facto, alguns apócrifos do Antigo Testamento são considerados obra dos patriarcas ou dos profetas (Apocalipse de Moisés, o Livro de Henoc, as Odes de Salomão, o Testamento dos Doze Patriarcas). No Novo Testamento alguns apócrifos são atribuídos a apóstolos) Proto Evangelho de Tiago, Evangelho de Tomé, Actos de Pedro, Actos de Paulo, Actos de João…).
O termo livro pseudo-epígrafo (falsa inscrição) foi introduzido pelos Reformadores para indicar os nossos livros apócrifos. Enquanto chamam “apócrifos” aos livros deuterocanónicos do Antigo Testamento que não são enumerados por eles no cânon: nisto seguem o “cânon hebraico”.
Um exemplo: para os católicos, o Eclesiástico é um livro “deuterocanónico”, o Apocalipse de Moisés é “apócrifo”; para os reformadores, o Eclesiástico é um livro “apócrifo”, o Apocalipse de Moisés é “pseudo-epígrafo”.
Pe Júlio Franclim e Pacheco
