Quando a lei justa se torna perversa…

À Luz da Palavra – XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B A Palavra deste Domingo ilumina a nossa reflexão sobre as diversas situações sociais, políticas e religiosas, que nós próprios experimentamos e que também conhecemos, como experiência de muitos dos nossos irmãos e irmãs. Refiro-me a aplicações injustas de leis ou a leis anacrónicas, que cavam desníveis económicos escandalosos entre os cidadãos do mesmo país, levam a um certo tipo de puritanismo e exclusivismo e, ainda, a muitas outras situações escravizantes, muitas vezes em nome da própria religião que professamos!

A primeira leitura apresenta-nos o extracto de um discurso de Moisés, elogiando alguns estatutos e normas, que visavam levar a uma prática de vida conforme a Aliança com Javé. Tratava-se de uma nova Constituição, cheia de sabedoria, de justiça e de maleabilidade para responder a novas situações, de tal modo que os outros povos ao olharem para as leis que regiam o povo de Israel se admiravam, tal era a justeza e a liberdade com que eram aplicadas as suas leis! Apesar da superioridade desta Constituição, inspirada por Deus a Moisés, ao longo dos tempos, muita poeira se foi acumulando sobre ela e, em nome do próprio Deus, muitas interpretações, acomodações e extrapolações foram construídas, de modo a acorrentar os mais pequenos, indefesos e pobres do povo e a conceder excepções e regalias aos doutores da lei e aos seus coniventes.

No evangelho, Marcos põe na boca de Jesus severas advertências contra este modo de proceder, que é uma autêntica corrupção da lei de Deus, tantas eram as tradições e ritualismos com que eles a tinham sobrecarregado. Jesus anuncia uma nova forma de moralidade, onde os homens e as mulheres se podem relacionar entre si na igualdade, na liberdade e na justiça. A lei da pureza e da impureza criou uma sociedade injusta, baseada em tabus, que estabeleciam e solidificavam diferenças entre as pessoas, gerando privilegiados, opressores e oprimidos. Na verdade “o que sai da pessoa é que a torna impura”. O que vem de fora não torna a pessoa pecadora, mas sim o que sai do coração, isto é, da consciência humana, que cria os projectos e dá uma direcção às coisas, boa ou má, justa ou injusta.

Na segunda leitura, Tiago diz-nos que Deus é apenas autor do bem e daquilo que leva ao bem. O supremo bem realizado por Deus consiste em gerar os seres humanos para a vida nova, comunicada pelo Evangelho. Tudo o resto é criação humana que desvirtua esta Palavra. O mesmo apóstolo adverte-nos para o essencial da vida cristã. A fé não consiste, apenas, em saber fórmulas ou conteúdos doutrinários de cor. Ela é um compromisso que abarca toda a nossa vida, privada e pública, e que nos leva a tomar atitudes concretas e consequentes. O Evangelho, centrado no mandamento do amor, é a lei da liberdade, pois o amor não se restringe a exigir a obediência a uma lista de obrigações. Ao contrário, ele é um comportamento criativo, que sabe dar resposta libertadora e construtiva em qualquer situação da vida.

Como encaro eu a Lei de Deus? Sou legalista, cumprindo apenas a letra da Lei, ou coloco-me sob a acção do Espírito, a fim de perceber, intimamente, o que está escrito e de dinamizar na minha vida uma corrente de amor que contagia e que me liberta a mim e aos outros?

Leituras do XXII Domingo Comum -Ano B: Dt 4,1-2.6-8; Sl 15 (14); Tg 1,17-18.21b-22.27; Mc 7,1-8.14-15.21-23

Deolinda Serralheiro