Quaresma sociológica ou existencial?…

Temos ouvido dizer, com alguma frequência, que os tempos litúrgicos fortes deixaram de ser sociais. Mas importa que o consciencializemos. Agora, já não há um clima social que nos advirta de que estamos em tempo de conversão, de sobriedade, de renúncia para a partilha fraterna, de silêncio que favoreça a interiorização e a proximidade com o divino, para recuperar e favorecer a nossa identidade de baptizados.

Ao contrário, sobretudo tratando-se da Quaresma, a dispersão acelera, até porque coincide com a aproximação e chegada da Primavera, com a melhoria de condições para as voltas turísticas. A evolução dos Carnavais de importação, que, com alguma frequência, fruto ou não das condições atmosféricas, se prolongam por esse tempo adentro, o hábito de diversão periódica, de acontecimentos culturais (musicais ou de outro tipo de espectáculo, desde a boa qualidade até ao gosto duvidoso ou francamente mau…), tudo foi despindo este tempo de qualquer nota sociológica de religiosidade.

Longe de ser uma ameaça para o cristianismo, esta situação, que não é nova de todo, mas que se generaliza rapidamente, é uma interpelação e desafio à criatividade e vida das comunidades cristãs e um abanão à consciência pessoal de cada baptizado.

Agora, está nas mãos das comunidades e dos seus animadores propor e desencadear programas e acções que favoreçam uma consciência das fragilidades e caminhos mal andados, um espírito e percurso de purificação, um reforço de vida sóbria e fraterna, um clima de acolhimento do amor de Deus traduzido, depois, no amor ao próximo.

É tempo de cada um se assumir como artífice da sua própria reconstrução, pelo reforço do seu vínculo à comunidade e pela mudança de rumo nas suas escolhas pessoais, em direcção ao que lhe é proposto como caminho de libertação autêntica, que é igual a santidade, pela incessante busca de coerência entre o que se professa por palavras e o que se vive no quotidiano.

Em tempos, o ambiente sociológico dava forma às nossas práticas e manifestações quaresmais. Hoje, porventura mais do que nunca, somos – em boa hora! – solicitados a darmos nós fermento de Evangelho aos espaços e âmbitos de vida, com redobrado entusiasmo neste tempo oportuno, sabendo que o caminho de penitência passa pelo dever assumido com alegria, pela coragem na vivência do estado escolhido, pela competência no empenho profissional e social, pela prática da caridade – dar o Amor que se recebe. As práticas de oração, de jejum, de dádiva, são apenas instrumentos para nos capacitarem para essa vida de autenticidade diária.