O prof. doutor António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz nasceu na vila de Avanca, em 1874. Ao longo da vida, foi médico, cientista, escritor, orador, professor catedrático, político e estadista de renome mundial. Faleceu em 1955, na cidade de Lisboa; os seus restos mortais foram trasladados para a terra natal. O facto de há dias ele ter sido recordado em Aveiro pelo prof. doutor Lobo Antunes leva-me a reviver aqui um encontro, na sua casa de Avanca, onde se refugiava de quando em vez. Era aí que generosamente recebia os amigos conterrâneos – e não só – para gozarem uns momentos de sã convivência e para captarem algo do muito que o mestre transmitia.
Aconteceu no verão de 1954. Numa tarde quente de sol, o dr. David Cristo convidou-me para o acompanhar numa visita ao emérito laureado. Comoveu-me o honroso convite, que tive oportunidade de aceitar. Pelo caminho, falámos sobre o ilustre avancanense. Logo na primeira impressão, ao cumprimentá-lo, descobri alguém dotado de singulares qualidades humanas, enriquecido de tenacidade para a vitória e disponível para fazer bem e perdoar.
Durante a conversa, que decorreu no seu escritório, o prof. doutor Egas Moniz deixou transparecer muito da sua experiência e da sua vida, indo mesmo ao ponto de confidenciar alguns pormenores de consciência, num misto de satisfação e de inquietação. Em certa altura, muito naturalmente desabafou: – «Efectivamente, eu estudei, sei e descobri muita coisa sobre o cérebro humano e a sua actividade; e tanto assim é que reconheceram o meu valor com o Prémio Nobel. Porém, há um enigma que eu não sou capaz de descortinar: – Que existe para além da morte? Não me posso convencer de que a minha vida venha a findar no pó da sepultura. Vocês, os cristãos, vivem tranquilos porque têm a resposta na fé. Fundamentam-se na palavra de Cristo e na sua morte e ressurreição. Mas eu não sou crente… e tenho pena de não ter fé, porque viveria intimamente sossegado.»
O dr. David Cristo, com um ar de recolhimento, atreveu-se a sugerir: – «Sr. professor, desculpe a minha modesta opinião. Julgo que sentir-se pesaroso por não ter fé já é um princípio de fé…» O nosso interlocutor baixou os olhos sobre os papéis na secretária e, concentrando-se, disse em surdina: – «Talvez!… Talvez!…» E limpou as lágrimas que furtivamente lhe corriam pela face.
O silêncio, que nos venceu durante largos segundos, não se ouvindo qualquer palavra naquela sala, serviu para uma reflexão continuada. Decerto que, na sua consciência, o prof. doutor Egas Moniz continuaria a caminhar ou mesmo a olhar para Alguém que o sossegasse… esse Alguém cujo amor perenemente O leva a encontrar-se com o homem para lhe comunicar a sua vida. A fé não é uma rendição perante a evidência, mas uma resposta livre a uma chamada, porque Deus jamais se impõe, mas propõe-se à nossa liberdade.
No regresso a Aveiro, o dr. David Cristo e eu apenas trocámos algumas palavras, de minutos a minutos, a comentar o nosso feliz encontro com o prof. doutor Egas Moniz.
João Gaspar
