A propósito das perturbações da marcha da chama olímpica A manifestação dos direitos e garantias do ser humano na sua génese prende-se com a forma como pode ser capaz de assegurar não apenas os seus interesses individuais, de grupo ou sociais, mas a aceitação tácita de todos os intervenientes diferenciados numa relação comum de partilha solidária e convivência sadia.
Existe sempre um espaço próprio para o confronto das ideias e interesses. Esse espaço será invariavelmente um campo de respeitabilidade daqueles que manifestam a defesa das suas convicções, sem atropelos de outros interesses mais gerais ou superiores.
Quando se confunde a manifestação da defesa de posições particulares, mesmo que justas e generalistas, com a desobediência dos mais elementares respeitos de valores universais, algo vai mal na garantia de um futuro melhor!
Não será, certamente, no impedimento do percurso da chama olímpica por todo o itinerário em que deveria circular livremente, elevando o espírito olímpico genuíno, que se promovem as solidariedades e atenções que podem congregar interesses fovoráveis à causa tibetana. Antes, se poderão levantar legítimas dúvidas: sobre que classe de pessoas ou interesses; qual a forma de liberdade representada; ou sobre se, mudando os figurinos da luta diária nesta guerra sem quartel, não estaremos a legitimar novas formas desajustadas de visibilidade mundial futura, em que pessoas particulares podem retirar a todos a manifestação de ideais antigos e profundos da criação das sociedades para o bem, a justiça e o desenvolvimento.
Tudo aquilo que poderia ser entendido como visibilidade positiva pode ter um efeito de boomerangue, com consequências irreparáveis na necessária solidariedade das opiniões públicas mundiais.
Uma causa justa só pode ser bem defendida por meios justos, equilibrados e respeitáveis.
A liberdade só pode ser defendida com respeito por todos. A opressão é o caminho dos falhados, porque fracas são as imposições pela força bruta; o vazio de ideias sempre obrigou a formar os músculos férreos.
A verdadeira liberdade será sempre uma via de dois sentidos.
Que nunca se justifique a opressão pela ânsia da libertação!
Armando Barbosa,
Albergaria-a-Velha
