Que o novo ano escolar seja um ano novo, um ano para educar

Os professores de Educação Moral e Religiosa Católica da Diocese de Aveiro reuniram-se com D. António Francisco dos Santos, na Casa Diocesana em Albergaria-a-Velha, no dia 6 de Setembro. Para além dos momentos de oração, de partilha das alegrias e dificuldades sentidas nas escolas, tivemos formação sobre a “Avaliação Pedagógica”, com a ajuda do professor Francisco Guimarães, e reflectimos e celebramos a Eucaristia com o nosso Bispo. Foi um dia vivido com muita intensidade, em preparação para o novo ano escolar.

Nesta página damos a conhecer aos leitores do Correio do Vouga as principais ideias da reflexão orientada por D. António Francisco. Tratando-se de educação, esta reflexão interessará a outros professores e, no fundo, a todos os educadores.

Elisa Urbano, directora do Secretariado Diocesano do Ensino Religioso na Escola

“O início do ano escolar é sempre um novo ano. Oxalá seja um ano novo – um ano para educar”. D. António Francisco abriu a sua reflexão com este jogo de palavras. Na verdade, perante a instabilidade que o sector tem vivido, podemos esquecer que o que está em causa é educar.

Constatando que este ano quase todos os professores se mantinham na escola onde leccionaram anteriormente, quis realçar que é sempre uma nova escola, uma escola a redescobrir, porque “o que faz a escola não são as coisas e as estruturas, são as pessoas. Não outras. E se as mesmas, há sempre diferenças”.

O Bispo de Aveiro, numa primeira parte, sobre a relação professor/aluno/escola, definiu três critérios prévios do professor e do professor de EMRC:

“1. Que sejamos servidores da causa da educação. Não estamos por empréstimo mas por serviço.

2. Que sejamos capazes de olhar para o mundo moderno com um olhar de benevolência. Olhar sereno, lúcido, atento, perspicaz. Querer bem a este mundo. Olhar o futuro num horizonte de esperança. “O futuro só pertence aqueles que tiverem um olhar de esperança” (T. Chardin).

3. Que tenhamos engenho e arte. Às vezes somos mais operários do que artistas. Importa que sejamos operários do suave peso de educar e artistas. Que saibamos cinzelar e esculpir um mundo novo”.

Para prosseguirmos na nossa missão de educadores temos assu-mir “algumas distâncias”: distância da ideia de que é tudo sempre igual, da tranquilidade do livro único e da segurança do compêndio, da ilusão de que o mundo está parado, do medo de não sermos capazes de abraçar a mudança e acolher a criatividade, da ansiedade de quem se vê com excesso de trabalho, de não conseguir dar resposta, de quem apenas vê o negativo do processo educativo. Citando Bernardino Ribeiro, D. António Francisco lembrou que “até o mudar mudou”.

Centralidade nos alunos

Diversas interrogações pairam no horizonte do professor de EMRC: O que é que nós queremos da Escola pública? O que queremos da Educação para todos – na sua essência e abrangência? Que objectivos, finalidades nos propomos atingir nas aulas de EMRC? Perante estas questões, podemos desconhecer o horizonte da meta e ter hesitação sobre o caminho a prosseguir, mas nenhum de nós duvida da centralidade da nossa acção: os alunos.

“Quando perguntamos «o quê ensinar?», o que nos preocupa é a quem ensinar/educar? Não são os conteúdos que estão em causa… mas as pessoas”, sublinhou o Bispo de Aveiro. “Há uma preocupação que precede toda a acção educativa: os alunos, a sua vida, o seu melhor, o seu futuro. São os critérios da nossa competência. Não é uma auto-realização que procuramos. Essa vem por acréscimo. Os alunos são a razão da nossa existência e o critério e paradigma da nossa exigência”, reforçou.

Sem abdicar de convicções

Numa segunda parte da sua intervenção, intitulada “Ser professor de EMRC é ser um Servidor do Evangelho”, D. António Francisco, tendo como base um texto do P. André Fossion, s.j. (na revista belga “Lumen Vitae”), reflectiu sobre a oportunidade das aulas de EMRC para o Evangelho.

Começou por definir alguns pontos prévios: a) A crise contemporânea e a cultura em geral são húmus criativo, momento de graça e de promessa; b) É preciso olhar mais para o mundo que está a chegar do que para o mundo que está a partir (S.to Agostinho); c) Mais do que lamentar-se das dificuldades é preciso dar resposta às oportunidades.

Como “a sociedade de hoje não transmite a fé mas a liberdade de escolha”, o papel do educador cristão é estar aberto ao diálogo, sem abdicar das suas convicções. “Olha-mos demasiado para o que se perde e demasiado pouco para o que emerge. Custa-nos ter olhar de profetas. A escola é este espaço em que a vida se configura”, disse. Família e a Comunidade, especialmente, reflectem-se e reconfiguram-se na Escola. “Uma resposta de escuta das aspirações presentes exige competência e discernimento”, afirmou.

A Floresta

depois da tempestade

Para ilustrar o seu pensamento, o Bispo de Aveiro contou a “Parábola da Floresta depois da Tempestade”. Em traços largos, um grupo de engenheiros florestais, depois da floresta ter sido destruída por uma tempestade, optou pela reflorestação com novas árvores. Quando os engenheiros se preparavam para plantar as árvores, constataram que, de forma espontânea, novas árvores estavam a surgir na floresta. Esta situação levou-os a repensar as suas decisões e a mudar de atitude. Decidiram não por replantar de novo mas por acompanhar o crescimento daquelas árvores que nasciam naturalmente.

De uma política voluntarista de reconstrução da floresta, os engenheiros passaram a uma política mais suave de acompanhamento da regeneração florestal, com tempo e discernimento. Lição da parábola: o segredo do êxito e da beleza está na mudança de atitude dos engenheiros florestadores.

Para os educadores, a parábola significa que sem renunciar em absoluto à intervenção, é necessário acompanhar de forma activa e vigilante. Por outras palavras, “para lá do paradigma do mestre, está o paradigma do acompanhante. Não estamos na origem da vida dos nossos alunos, mas acompanhamos o seu crescimento. Todo o ser Humano é capaz de Deus”, afirmou D. António Francisco, que terminou a sua exposição indicando as dez atitudes espirituais do professor de EMRC (ver destaque).

Numa nota final, é de referir que a presença de D. António Francisco, as suas palavras, a proximidade de todos e de cada um, fazendo-nos sentir a forma profunda e amiga com que vive as preocupações e alegrias dos professores de EMRC, são atitudes reconfortantes e motivadoras. Sentimo-nos em comunhão com o nosso Bispo e foi com o coração cheio de esperança e alegria que por ele fomos enviados em missão.

Dez atitudes espirituais do professor de EMRC

1. Ser o primeiro e constante destinatário do Evangelho.

2. Saber deslocar-se para onde Cristo se encontra e ajudar os alunos a fazê-lo.

3. Fazer-se acolher enquanto se acolhe. Só se aprende com quem se ama. É o exemplo de Cristo: a hospitalidade mendigada de Jesus em Betânia, com Zaqueu…

4. Humanizar e criar fraternidade na Escola e para a Escola.

5. Saber articular a “pregação de Jesus” e a “pregação sobre Jesus”. Com equilíbrio.

6. Trabalhar as imagens e as representações de Deus.

7. Saber alimentar a memória. A memória é sempre acção de graças. Somos mais ricos quantas mais pessoas temos a quem agradecer. Alimentar a memória da gratidão. Animar o debate e favorecer a liberdade.

8. Tomar as resistências dos alunos como oportunidades.

9. Perceber a diferença entre “crer com” e “crer como” (o avós, os pais). O importante é acreditar com os outros. Abre-se o mundo da escola à comunidade.

10. Todos nós precisamos de pedir e receber ajuda. Aprendemos a receber para podermos dar.

O professor está do lado da verdade procurada

“Um sofrimento que acompanha os professores, maior do que o medo, a indisciplina, o desinteresse dos alunos, a instabilidade do ambiente escolar e do clima educativo, é a consciência de que já não é ele a decidir o caminho da evolução e o futuro do mundo. Mas continua a ser imprescindível. O lugar do professor hoje é outro: não é do lado do saber adquirido mas sim da verdade procurada. Não é o único timoneiro da história, mas é membro de uma rede orgânica que sem ele dificilmente funciona.

O professor já não é o habitante único da Escola. Na Escola estamos todos: alunos, professores, famílias, funcionários, associações culturais, comunidade. Mas o professor é indispensável. Sem ele não há escola…

Hoje pede-se muito ao professor. Pede-se mesmo demais. Pede-se carisma, génio, qualidades naturais, vocação, gosto de ser. Pede-se competência profissional, pedagógica. Pede-se disponibilidade, criatividade, capacidade de trabalho, confronto, transparência. É muito ao mesmo tempo.

Ao professor de EMRC pede-se ainda que seja igual e diferente. Por vezes, pede-se que seja menos, empobrecendo pedagogicamente a escola do contributo essencial dos professores em toda a sua dimensão.

Ao professor de EMRC, a Igreja pede que professe as suas convicções, pede coerência de testemunho cristão. Como disse Paulo VI, “o mundo precisa mais de testemunhas do que de mestres, e se admira os mestres é porque são testemunhas”.

D. António Francisco