“Quero trabalhar condiadamente sem cansaço nem desânimo”

Na primeira entrevista como Bispo de Aveiro, D. António Francisco dos Santos revela que na tarde em que soube que Bento XVI o nomeava para a nossa diocese rezou e louvou o Senhor pelos sacerdotes, diáconos e estruturas pastorais. O primeiro responsável pela igreja aveirense quer ter tempo para “conhecer a alma das gentes de Aveiro” e considera que embora a diocese não tenha grandes meios materiais, isso não o perturba nem condiciona nos planos e objectivos pastorais. D. António Francisco dá prioridade à pastoral das vocações.

Correio do Vouga – D. António Francisco, desejamos, antes de mais, saudar a sua vinda para Aveiro. Para além da confessada surpresa, sentiu-se perturbado com a sua escolha? Como foi o caminho de “conversão” a esta nova missão?

D. António Francisco dos Santos – A surpresa inicial provocou em mim uma natural e espontânea sensação de apreensão, naquele instante inesperado em que me foi comunicada a vontade do Santo Padre Bento XVI.

À apreensão sentida no primeiro momento seguiu-se um tempo sereno de oração, de silêncio e de reflexão, que julguei ser o tempo necessário para exprimir ao Santo Padre a minha alegria pelo ministério episcopal vivido na Arquidiocese de Braga e a disponibilidade confiante para servir a Igreja como Bispo de Aveiro.

Manifestada esta disponibilidade e esta confiança, continuei a assumir por inteiro os compromissos pastorais programados na Arquidiocese de Braga e fiz deste tempo e deste ministério um testemunho de sentida gratidão à Igreja de Braga e caminho de aprendizagem mais atenta e de preparação mais próxima para a nova missão em Aveiro.

Disse, na sua primeira mensagem à Diocese, querer estar junto do clero com a bondade de pai e a humildade de irmão. Com um clero de média etária avançada, em número reduzido, e também com um escasso contingente de jovens em caminhada vocacional, como entende realizar esse propósito?

Na tarde do mesmo dia em que me foi comunicada a decisão do Santo Padre, abri o Anuário Católico e li a indicação dos dados estatísticos, das estruturas pastorais e os nomes de todos os sacerdotes e diáconos da nossa Diocese. E por cada um deles rezei e louvei o Senhor.

Darei à pastoral vocacional uma prioridade permanente e persistente. Louvo o Senhor da Messe pelos sacerdotes que deu à Igreja de Aveiro e para cada um peço bênção, saúde e fidelidade alegre e generosa.

Quero trabalhar confiadamente, sem cansaço nem desânimo, com o Seminário, com a Pastoral Vocacional, Juvenil, Escolar, Universitária e Familiar, nesta vertente essencial da vida da Igreja.

Este é o momento de celebrar a gratidão e a esperança em relação ao Presbitério diocesano e aos Institutos de vida consagrada.

Jesus Cristo começou pelo chamamento: “Vem e segue-Me”; depois criou uma escola de discípulos: “Vinde e Vede”; só a partir daí e da experiência do Cenáculo, da Cruz e da Páscoa os enviou em missão.

Sabendo que o coração da Mensagem é Jesus Cristo e, simultaneamente, que uma fé não inculturada não é uma fé vivida, tem pensadas algumas pistas de evangelização para esta realidade de Aveiro?

Lembrei, na Homilia da Eucaristia do dia 8, que o coração da Mensagem é sempre Jesus Cristo que nos ofereceu a Sua vida e nos deixou o Evangelho das Bem-aventuranças. Urge começar sempre a partir de Cristo – da Sua Palavra proclamada e da Sua vida entregue. Contemplar Cristo, vivo e ressuscitado, na Palavra e na Eucaristia é prioridade da Igreja e é fundamento de toda a evangelização.

Cumpre-me depois conhecer a realidade da vida diocesana. Quero ter tempo suficiente para conhecer a alma das gentes de Aveiro; perceber a linguagem e o tom das suas vozes; entender os seus clamores e desafios; olhar a ria e o mar; percorrer os caminhos dos espaços rurais e do mundo industrial; entrar e rezar com o povo cristão nas suas Igrejas e ser peregrino com os peregrinos dos nossos santuários e acolher quantos aqui buscam o saber ou o repouso, o descanso ou a saúde.

Quero vincular-me aos dinamismos pastorais nascidos na Igreja de Aveiro ao longo destes sessenta e oito anos da sua mais recente história e assumidos pelo II Sínodo Diocesano como aplicação concreta do espírito renovador do Concílio Vaticano II à nossa Diocese. Sejamos nestas Terras da “Rota da Luz” âncora e farol a iluminar o mundo com a “luz” de Cristo. Consolidemos cada vez mais a nossa identidade, unidade e comunhão.

Um dos caminhos da inculturação é, seguramente, o diálogo com as comunidades educativas – e Aveiro tem uma Universidade eminentemente tecnológica. Vem de uma formação e trabalho na Educação. Sonha já algum processo de presença e intervenção clara nesse mundo?

A nossa Universidade e as nossas Escolas são valores, instituições e comunidades de vida, de trabalho e de saber que constituem um dom de Deus à nossa terra e que fazem de Aveiro um prestigiado centro de convergência de milhares de jovens e de irradiação do saber, do progresso e do desenvolvimento a partir daqui para o país e para o mundo.

A Igreja foi sempre pioneira, próxima e dialogante, nesta vanguarda do ensino, da educação e da Universidade.

Aproveito esta ocasião para saudar todas as Instituições académicas e quantos aí estudam, ensinam e trabalham. De todos me sinto próximo e procurarei estar presente sempre que o nosso esforço conjunto e solidário se manifeste útil e necessário.

Estou convencido que esta presença solidária da Igreja constitui um contributo essencial para o bem da Comunidade humana que servimos e para o futuro dos jovens.

Quero sublinhar a importância da presença de professores cristãos no mundo do ensino e da educação; do trabalho realizado nas Escolas pelos Professores de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC); e da acção primordial que a Diocese oferece à Universidade e à Cidade através do Centro Universitário Fé e Cultura (CUFC) e do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA).

O seu lema episcopal é sereno e repousante. Propõe-se, também pelo que essa convicção significa, influenciar a vida desta Igreja, em meio de correrias, no sentido de uma tranquila esperança, que não seja “resignação”?

Escolhi como lema episcopal as palavras de Cristo “In manus Tuas”, quando, no auge da entrega a Deus, Seu Pai, Jesus sente que tudo se consuma e realiza porque entregue nas mãos de Deus a favor da Humanidade. É a hora da doação por excelência. É a hora do serviço mais despojado a favor de todos.

É a hora em que a eternidade se une ao tempo, para que o tempo da Cruz se faça caminho da Páscoa.

Este lema manifesta um sentimento, configura uma atitude e constitui para mim um imperativo, para que tenha sempre tempo para Deus e aí aprenda a ter tempo para os irmãos; tempo para rezar, acolher, ouvir, dialogar, confirmar e incentivar de ânimo, de alegria, de encanto e de entusiasmo os sacerdotes, os diáconos, os religiosos e religiosas, os leigos; a fazer que esta convicção de vida e esta pedagogia de ministério se transformem e multipliquem em escolas de comunhão, de acolhimento, de partilha e de corresponsabilidade. Descobri, há dias, que este era, também, o lema episcopal de D. Hélder Câmara, que ele transformou, de modo exemplar, em lema de um “homem sereno” e de “um bispo inquieto” pela causa de Cristo, pelo anúncio do Evangelho, pelo amor da Igreja e pelo serviço dos pobres.

Sabe como os nossos tempos têm alguma “alergia” à vida das Bem-aventuranças, em meio de tanta vaidade, tanta mentira, tanta intolerância e mesmo de alguma abundância material, que estimula o consumismo, o individualismo. Quer deixar-nos alguns caminhos dessa vida que Jesus propõe?

Amar o mundo do nosso tempo e ter coragem para proclamar as bem-aventuranças do Reino, na base dos critérios evangélicos e dos paradigmas dos valores cristãos, constitui para mim um desafio permanente.

É este suplemento de alma que a Humanidade precisa de receber da Igreja, à luz da palavra do Concílio na Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”.

Como caminhos que ouso propor à Diocese, quero referir: a ur-gência de dar visibilidade ao Bem realizado, na linha da coerência evangélica e da santidade de vida de tantas pessoas, iniciativas e instituições da nossa Igreja Diocesana e a coragem apostólica de proclamar o Evangelho de Jesus Cristo – como novidade, verdade, beleza, entusiasmo, encanto e ousadia da caridade, tanto própria dos santos e dos profetas.

Reconheço a importância da Comunicação Social, desde os meios e métodos mais clássicos aos mais modernos e inovadores, neste âmbito concreto. Presto a minha homenagem ao nosso Jornal Diocesano “Correio do Vouga”, aos Boletins Paroquiais e a tantas iniciativas de vanguarda e de bem da nossa Igreja de Aveiro.

Como sabe, Aveiro é uma Diocese pobre em meios materiais. Assusta-o poder ser coarctado nos seus planos por esta forma de pobreza?

Compreendo que sendo Aveiro uma Diocese nova não tenha grande património material nem acumulados recursos financeiros. Isso não me perturba nem me condiciona nos planos e nos objectivos pastorais.

Venho para servir as pessoas e acredito que da generosidade do seu coração e da dedicação do seu trabalho nascerão as estruturas indispensáveis à vida da Igreja, ao anúncio do Evangelho e ao serviço dos pobres. Essa é a nossa missão. O resto virá por acréscimo.

Tudo farei para que aos servidores do Evangelho não falte nunca o essencial e o necessário.

Numa Igreja que é “casa e escola de comunhão “ repartiremos todos e sempre o pão como irmãos.

Quer deixar uma palavra final de estímulo a esta Igreja que o acolhe como Bispo?

Por temperamento, por experiência e por convicção, sinto que a gratidão em relação aos que connosco trabalham é o fundamento maior e o alicerce mais sólido onde se sustentam as novas missões a realizar, onde nascem todos os caminhos que somos chamados a percorrer.

Agradeço, assim, ao Senhor D. António Marcelino, ao Senhor D. Manuel de Almeida Trindade e a todos os membros desta Comunidade Diocesana o que a Diocese de Aveiro é, hoje, e peço a Deus que eu seja um humilde, digno e generoso servidor desta tão amada Igreja de Aveiro, verdadeiro pastor segundo o coração de Cristo.

Conto com todos para que, cumprindo o belo lema do Brasão da nossa Diocese, saiba sempre que “amar a Deus é servir”.