Reclusos comemoraram vinte anos de “Alvorecer”

Jornal da prisão de Aveiro publica-se há duas décadas. Provavelmente, é o mais antigo num estabelecimento prisional português.

O jornal do Estabelecimento Prisional Regional de Aveiro (EPRA) publica-se há 20 anos. Foi em 1986 que um grupo de reclusos, com o apoio do capelão, Pe João Gonçalves (“o padrinho do jornal” – como os reclusos agora lhe chamam) e da direcção do EPRA, fez sair o nº 1 do “Alvorecer”, dactilografado numa velha máquina de escrever, com colagem de recortes e fotocopiado na Câmara Municipal de Aveiro. Não havia computadores nem fotocopiadoras no EPRA. Mas havia vontade de comunicar.

A vida interna do EPRA, a exigência de melhores condições, os sentimentos dos reclusos (com poesias à mãe, à “mulher da minha vida” ou sobre o sonho e a ilusão), a sida e a toxicodependência, mas também o que se passa em Timor, a S.ta Joana ou o Dia Internacional da Mulher são alguns dos temas abordados por esta publicação bimensal, provavelmente a mais antiga num estabelecimento prisional português.

“Alvorecer” – e não “Alvorecendo”, como chegou a ser proposto – significa que “todos os dias vivemos e esperamos viver. Ninguém tem raízes. Estamos todos de passagem. Chama-se ‘Alvorecer’ pelo infinito que a vida é”, revela o Pe João Gonçalves.

Os 20 anos deste jornal elaborado pelos reclusos, embora com o apoio dos Serviços de Educação, comemoraram-se na tarde do dia 23 de Junho, com exposição de fotos e de números antigos, edição especial do “Alvorecer”, bolo de aniversário, representação teatral e uma muito participada sessão de perguntas e respostas. Os reclusos assumiram o papel de jornalistas e lançaram questões a três entrevistados – jornalistas do “Público”, de “O Aveiro” e do “Correio do Vouga”. A função da comunicação social, as características do bom/mau jornalismo e a importância da liberdade de expressão foram alguns dos assuntos das perguntas dos reclusos, numa sessão muito participada.

“Gostava de colaborar num jornal”

Carlos Rodrigues é um dos colaboradores do “Alvorecer”. “Escrever é uma forma de levar aos outros o que eu sinto”, diz ao Correio do Vouga. “O recluso não é só um criminoso, fora da lei, sem coração; tem sentimentos”, acrescenta. Se já quando andava na pesca do bacalhau gostava de escrever, agora quer ir mais longe: “Quando sair [da prisão], gostava de ser colaborador de um jornal”. Este jovem recluso reconhece que ganhou o gosto pela leitura na prisão, por influência dos Serviços de Educação. “Cá dentro despertaram-me interesse para a leitura”. Ultimamente, Carlos Rodrigues tem lido obras de Alexandre O’Neill, Sophia e Florbela Espanca.