Reencontrar a bússola

1 – Vivemos cada vez mais perplexos, face à ousadia do terrorismo. Cada vez que os governos pensam ter circunscrito o fenómeno, isolado os seus mentores e autores, cada vez que pensam ter irradicado a sua semente, eles aí estão de novo, a dizer que a raiva reside no coração do homem e que ele é impenetrável. Se, algumas vezes, as atitudes traem os sentimentos dos seus agentes, na maioria dos casos eles convivem com a normalidade da vida, para que a surpresa seja maior, sem que ninguém se aperceba do perigo.

2 – “Eminentes” colunistas continuam a proclamar que a única salvação da liberdade e igualdade de todos é a laicidade do Estado, deixando ler nas entrelinhas que a religião é sempre a fonte da intolerância e divisão, é potenciadora dos conflitos e origem de todas as desgraças humanas. Assusta-os o ressurgimento da visibilidade da religião, porque nela se fundamentam os radicalismos e fundamentalismos, uma vez que todos os aspectos da vida passam a ser sensíveis à opção religiosa, contaminando as posições em relação a uma maioria dos problemas da vida.

3 – Só haveria um caminho seguro para devolver a tranquilidade, a convivência pacífica aos grupos e nações: que a laicidade do estado redundasse em sociedade laica em absoluto, onde, em vez de termos de combater a ideia de Deus, se pudesse abstrair totalmente de pôr a questão religiosa! Varrido esse escopo, estaríamos no paraíso! Mesmo que esse desaparecimento consistisse em remeter a questão para o âmbito do privado, da consciência individual.

4 – Mas há também os bons pensadores que advogam que nunca os argumentos puramente filosóficos para estabelecer valores essenciais levaram a algo conclusivo. Uma ética natural de desenvolvimento pessoal e de convivência social baseada apenas na razão não produziu mais do que generalizações problemáticas ou modelos utilitaristas e pragmáticos, que tendem a falhar, precisamente quando se exige que o homem ultrapasse o proveito ou a felicidade pessoal, em benefício da comunidade ou da inteira humanidade.

5 – É evidente que está fora de questão ressuscitar reconhecidas autoridades, tradições, estilos de vida, bem como os valores a eles associados – os que davam segurança no passado. Provavelmente vivemos mais de “regulamentos” do que de “orientações de base”. Mas essa bússola temos de a reencontrar! Aspectos fundamentais, a serem tidos em conta nos sistemas educativos, que desenhem uma orientação básica, porventura cristã… Mas que contemple – isso sem dúvida! – esta vertente harmonizadora da pessoa humana, que é a sua aspiração transcendente, o “hommo religiosus”, que se não confunde com os desvios que qualquer confessionalidade pode conter.