Retorno à ética

O facto ganha, diante do público mais simples e sensato, dimensões de um escândalo nacional de rara gravidade. Em vésperas de assumir a nobre e pesada tarefa de julgar ou intervir de modo relevante na apreciação das atitudes, das acções dos cidadãos, estes candidatos irresponsáveis fazem, com a maior das normalidades, um “copianço” colectivo.

Tão ou mais grave do que isso, parece a solução proposta inicialmente, atribuindo a todos uma nota “administrativa” de dez valores: que premeia os faltosos e castiga os que se empenharam e teriam, porventura, melhores classificações. Esperamos que o bom senso impere e que a repetição da prova, como verdadeira aferição de saberes, venha a realizar-se.

Incomoda ouvir uma espécie de desculpa, dizendo que estas são práticas já herdadas dos níveis iniciais de ensino… E não será já tempo de se banirem estas práticas de todos os níveis escolares? A passagem pela Universidade não deveria ser, ao menos essa, a etapa de amadurecimento, de estima pelo trabalho, da consolidação de uma consciência com valores? Como será possível construir e gerir uma sociedade de justiça, se ela não for alicerçada na verdade de procedimentos?

Estamos a liquidar definitivamente um futuro de conhecimento, de civilidade, de relações de confiança, de espíritos lúcidos e combativos, com toda esta anomia, com a indiferença e o fechar de olhos à necessidade do trabalho e do mérito.

Há tantos jovens que são sérios, reconhecem a urgência de repovoar a sociedade de valores de honestidade, de transparência, de esforço… Existem múltiplas instituições educativas, seja de iniciativa estatal, seja de iniciativa particular ou cooperativa, que, sem fechar a porta a ninguém, desenvolvem métodos de motivação e estímulo para a construção de personalidades íntegras, de profissionais competentes e criteriosos. Por que razão ceder ao “banditismo” da subjectividade e do facilitismo, propagandeado por pseudo-pedagogias ditas modernistas?

Fantásticas tecnologias de ponta deverão ser colocadas ao serviço do saber, da competência, do avanço no conhecimento, ou serem consagradas como suporte da preguiça, como agentes da iniciação à burla e à corrupção?

Não é um mero episódio banal. Tem de dar que pensar. Tem de preocupar e ocupar aqueles que acabam de assumir a responsabilidade de reabilitar o País, recriando métodos e apontando caminhos, sobretudo mobilizando os cidadãos conscientes para assumirem esta tarefa com imperativo nacional.

É urgente “uma ruptura radical com a fuga para a frente do «cada vez mais»”. “Está mais do que na altura de a preocupação com a ética, a justiça e o equilíbrio duradouro se tornar preponderante” – como diz Stéphane Hessel. É um desafio enorme, mas realizável!