O Movimento dos Cursilhos de Cristandade (MCC) realizou, de 17 a 19 de Fevereiro, umas jornadas de reflexão sobre a sua presença na Igreja e no mundo de hoje. Este movimento, que tem como finalidade o despertar da fé adormecida nos adultos, procurou novos caminhos para a sua missão de sempre. As jornadas foram, de certa forma, um despertar do vigor do MCC, agora pelo diapasão da Nova Evangelização e do lema da diocese, que impele a uma presença cristã ao serviço das pessoas e da sociedade.
O Movimento dos Cursilhos de Cristandade decidiu reflectir o seu modo e a sua presença na sociedade. Convidou para isso bispos e teólogos, “cursilhistas” (os que fizeram esses três ou quatro dias de retiro para redescoberta da fé cristã), de dentro e de fora da diocese, e não cursilhistas (acederam poucos ao convite), e organizou uma jornadas de reflexão. Sendo especificamente sobre o MCC, na verdade, muito do que foi dito é aplicável a todos os movimentos de Igreja.
Arnaldo Pinho, padre e teólogo do Porto, descrevendo como “era do vazio” o ambiente cultural em que vivemos, afirmou a necessidade de o cristão ser como a azinheira: “raízes profundas, caule duro, ramos frondosos”. Raízes profundas para se alimentar bem e ter estabilidade, caule forte para aguentar o vento e ramos que proporcionem boa sombra. Para este teólogo do Porto, vi-vemos numa sociedade em que “tudo está colado com arames”, em que as pessoas circulam “entre coisas inconsistentes, entre fragmentos. Viajam, mas não evoluem”. Neste ambiente, no próprio cristianismo sente-se uma “tendência para o desassoreamento”. Necessário será, por isso, conversão do coração, mas também o saber estar nos debates culturais, de forma a ultrapassar “o fosso entre a cultura e a fé”.
D. Manuel Clemente, que falara antes de Arnaldo Pinho, abordou igualmente o fosso fé/cultura, para sublinhar a necessidade do testemunho de cristãos reconhecidos pela sua competência. “O mundo aceita melhor as testemunhas do que os mestres, e só aceita os mestres se eles forem testemunhas”, disse o bispo auxiliar de Lisboa, citando Paulo VI. Numa vertente mais pastoral, D. Manuel sublinhou que os cursilhos, “mais uma movimentação do que um movimento”, “são das experiências mais consequentes e frescas, apesar do meio século de vida” e compreendeu que os padres nem sempre possam dar assistência como o movimento deseja, pois, num único fim de semana, podem ter de marcar presença em reuniões de escuteiros, casais, jovens, catequeses infantis, noivos…
A presença dos cristãos marcados pelo Cursilho de Cristandade (uma expressão que algumas vezes foi criticada, pois não estamos em “época de cristandade”) no ambiente social foi o tema do Pe Georgino Rocha, que defendeu a necessidade de uma “caridade política”, além da “caridade social”. Para que se realize o projecto de Jesus Cristo, a política é uma das formas mais nobres de compromisso”, disse o padre da diocese de Aveiro.
Ao Pe António Cruz, pároco de Oliveira do Bairro e director espiritual do movimento, coube a última comunicação das jornadas e delinear, de alguma forma, a “mensagem de encerramento”. Nela se lê que “uma Igreja que não serve, não presta”, e apontam-se critérios evangélicos para ler e transformar o “meio ambiental”, isto é, os espaços como a família, o trabalho ou os tempos livres, onde decorre a vida. Vale a pena citar:
“O Evangelho diz-nos:
que a pobre viúva deu mais que o rico – um critério: é a dádiva;
que as sementes caem em todas as terras – outro critério: é a presença;
que é preciso conter a ceifa até à colheita – outro critério: é a paciência;
que o mundo é um campo onde se semeou o bom e o mau – outro critério ainda: é a ponderação;
que os de fora (o centurião romano), às vezes, são melhores que os de dentro (os fariseus) – visão desapaixonada – é também outro critério”.
Mário Braga, presidente do MCC na diocese de Aveiro, avaliou as jornadas como sendo muito proveitosas e recolheu algumas orientações para o interior do movimento. O essencial é, como afirma, “ser coerente no testemunho. O movimento não se pode deixar acomodar. Se se acomoda, vai-se diluindo”.
Dois testemunhos
Nascido em Espanha, em meados do século passado, o MCC está presente na diocese de Aveiro desde a década de 60. Ao longo de 74 cursilhos de homens e 58 de senhoras, terá tocado no coração de mais de 3500 homens e mulheres nesta diocese. O cursilho, três ou quatro dias intensos de oração, anúncio e testemunho, marca para sempre quem nele participa – como referiram várias pessoas ao longo das jornadas. O Correio do Vouga ouviu dois testemunhos.
“Reconhecer Cristo nos irmãos”
Maria da Graça Rato, da Palhaça (Oliveira do Bairro), fez o seu Cursilho de Cristandade há mais de três décadas. “Nele aprendi a reconhecer Cristo nos irmãos, principalmente nos mais pobres e mar-ginalizados”. Esse reconhecimento teve um consequência. “Juntamen-te com outras pessoas – algumas delas também cursilhistas – formámos um grupo Cáritas, do qual ainda faço parte”. O Cursilho “abriu novos horizontes para a vida”, diz Maria da Graça. “Ajudou-me a ter consciência do meu papel como mãe e como esposa. Ajudou-me a ser cristã na família e no mundo em que vivemos”. Também na dimensão familiar a vivência cristã teve consequências bem concretas. Maria da Graça, mãe de cinco filhos, criou mais “duas moças”, suas afilhadas, como filhas.
Renascimento aos 30 anos
Para Tito Queirós participar num cursilho “significou um renascimento”. “Foi quase um nascimento biológico aos 30 anos, porque não tinha a mínima noção do que era ser cristão, nem do que era a Igreja. Ajudou-me a descobrir que também sou Igreja”.
Este aveirense fez o cursilho na diocese do Porto, o 19º, em Novembro de 1963, e a partir daí empenhou-se na pastoral juvenil. Ainda há dias – contou em público – ouviu da boca de um presidente de Junta de Freguesia que este, jovem, ficara marcado por palavras de testemunho cristão do então jovem adulto Tito.
Nas jornadas, Tito Queirós confessou que sentiu uma “comoção até às lágrimas” ao ouvir cânticos e pormenores típicos deste movimento e recordou ao Correio do Vouga um episódio que antecedeu a entrada do MCC na diocese de Aveiro. D. Manuel de Almeida Trindade era então o bispo de Aveiro e quis participar num Cursilho, fora da diocese, para provar o sabor do movimento. Fê-lo como “padre Manuel”. E assim foi tratado por todos os cursilhistas. Só a organização sabia que ele era o bispo de Aveiro. Na celebração final, todos ficaram espantados, quando o “padre Manuel” presidiu à missa como bispo que de facto era.
