Poço de Jacob – 130 No campo da educação, que abrange pais, encarregados de educação, professores, padres e bispos, ordens religiosas, sobretudo se trabalham com jovens, há muitos aspetos a considerar, pois a educação de um ser humano, é, sem dúvida, uma atividade necessária. Deus é o nosso grande educador. Maria é nossa Mãe e educadora. A Igreja é Mãe e educadora em Jesus Cristo, o Mestre. Mas educar é uma tarefa difícil, por vezes árida, quantas vezes ingrata e sem reconhecimentos ou frutos evidentes, tarefa lenta, que exige perseverança de parte a parte, uma paciência quase infinita. Um certo desinteresse até dos frutos, pois cada pessoa reage de modo singular e irrepetível. Tolerância. Serenidade. Ciência. Psicologia. Dedicação e espírito de sacrifício. Doação incondicional no amor. Uma dose forte de esperança e de fé. Comunidade. Inteligência. Saber abordar e respeito pelo indivíduo. Sentido da vocação. Enfim, uma infinidade de valores e capacidades deve revestir o educador de hoje.
Ao lado da brandura, uma enorme firmeza de princípios e exigência, sem vacilar entre o sim e o não… É difícil educar e ser educado. Deus que o diga quando nos vê a cada um de nós! Mas é tarefa que abrange todos e cada um dos homens sem exceção. O bom exemplo também convence e é-nos exigido pelo mundo, pela autenticidade e pela verdade que devem também existir no educador aliado à humildade e abertura do que recebe a educação.
Como padre, tenho visto como o nosso povo gosta que lhe expliquemos as coisas da fé, da psicologia e da vida com clareza e sem palavras e termos caros. Tenho visto que as pessoas gostam que lhes ensinem as regras da vida, da sociedade. Algumas tão simples: como saber estar nos espaços de modo conveniente, usar linguagem e termos adequados, vestir da maneira própria do momento e dos espaços, enfim, coisas elementares que até como regras da boa etiqueta social têm o seu lugar e o seu valor educador.
Tenho visto que a maioria das pessoas reage positivamente quando lhes dizemos para guardar silêncio numa celebração, vestir-se com decência usando uma echarpe, fazer bem a genuflexão, ou observarmos sobre o lugar das chicletes na vida social, numa sala de aulas, numa igreja… Normalmente a adesão é grande, e se há reações contrárias, tenho visto que isso se deve à má intenção, à malícia de certas pessoas, a traumas de educação, por vezes provocados pela própria Igreja. Aprendi que quem fere é porque já está ferido. Quem insulta, é porque grita por compreensão e desabafo. Não acredito no homem verdadeiramente mau a não ser que seja movido pelo demónio ou por uma sucessão de acontecimentos que foram endurecendo as suas almas, embora também haja pecado e malícia, claro…
Gosto de educar. Gosto de educar com o sorriso e de ser educado por alguém, que pode ser um paroquiano meu que me diz que errei ou devo reconsiderar esta ou aquela atitude. A arte de educar, de ser educado, de autoeducar-se é uma obra divina em nós e tende a forjar santos.
O que me entristece é ver, por vezes, o descurar da educação, por medo da reação, negligência ou indiferença, por parte de educadores, de pais a padres e movimentos da Igreja. Acho que uma palavra do Bispo ou do Magistério da Igreja em certos assuntos e momentos ajudava tanto… Falar fora da hora ou calar-se covardemente é um pecado do educador, como falar mal, deselegantemente e sem ciência também. Sobretudo sem amor.
Ao almoçar com um jovem pai, há dias, ele falava-se da crise de fé da sua filha de 14 anos, que achava a Igreja uma seca e os cristãos tristes e azedos nas missas. A malta nova gosta de coisas mais mexidas, embora nem todos. O pai respondeu pedindo que a filha não se esquecesse que no seu crescimento nunca deveria descurar a sua vida espiritual, o seu interior, fosse como fosse.
E um dia, quando a menina cantava para mais de 40 membros da família, a qual alugou um autocarro para uma ida a Fátima – algo de magnífico, tratando-se de uma só família -, ele ouviu a música em inglês e, no momento próprio, sugeriu-lhe que ela trocasse as palavras que cantara por aleluias, e em vez de “I love you, my love”, dissesse “Eu te amo, meu Deus”, e perguntou-lhe que diferença encontraria, visto que a música não era tão mexida como a que ela queria encontrar na Igreja… A menina ficou confusa na resposta, mas caiu forte, pois é inteligente e os seus pais são gente que nem nas férias prescinde da sua Eucaristia dominical, como muitos que habitam nossa Diocese. Coisas pequenas? A educação é isso: coisas pequenas que vão formando gigantes.
Vitor Espadilha
