São necessárias medidas imediatas para fazer face às alterações climáticas

As alterações climáticas são uma “realidade incontestável”, até porque “todos nós já demos conta de uma série de mudanças em termos do que era o clima normal”. “Cientificamente, já não há dúvida nenhuma”, defende Carlos Borrego. O professor da Universidade de Aveiro (UA) e antigo ministro do Ambiente considera que em Aveiro é necessário tomar medidas específicas.

Carlos Alberto Diogo Soares Borrego,

59 anos, licenciou-se em Engenharia Mecânica (ramo Termodinâmica Aplicada), pelo Instituto Superior Técnico (Lisboa), em 1972. Desde 1975 é professor da Universidade de Aveiro (professor catedrático a partir de 1991). Em 1981, fez o doutoramento na Université Libre de Bruxelles. Entre 1991 e 1993 foi ministro do Ambiente e Recursos Naturais. De 1998 a 2002 foi vice-reitor da UA. Com dezenas de artigos e livros publicados e tendo coordenado diversos projectos de investigação, Carlos Borrego é reconhecidamente um dos maiores especialistas nacionais em poluição atmosférica.

Desde o início da década de 1990, foram provocadas mudanças climáticas que, na opinião do investigador da UA, “não têm só a ver com a componente natural, já que, nas alterações que entretanto se produziram, houve, sem dúvida nenhuma, a introdução de factores antropogénicos que deram origem a um aumento da velocidade no que causa essas alterações. Não estamos a dizer que não haja alterações naturais, pode haver perfeitamente, e, se calhar, estamos numa situação em que as alterações naturais estão a evoluir; mas nós, com a nossa intervenção, viemos acelerar essas alterações”.

Carlos Borrego realça que, por aquilo que “hoje é conhecido cientificamente e está comprovado, as causas do aquecimento têm a ver com os gases do chamado «efeito de estufa». Neste conjunto de gases, incluem-se o anidrido carbónico (ou dióxido de carbono, CO2,resultante de queimas), o metano (da putrefacção de resíduos), o óxido nitroso (da decomposição dos fertilizantes), os HCFC e os PFC (compostos clorados usados na indústria) e o hexafloreto de enxofre (usado na indústria).

O efeito de estufa provoca o aumento da temperatura, o qual, de acordo com Carlos Borrego, “já é visível, apesar de ainda ser em décimos de grau. O problema é saber o que é que estes décimos de grau, ou um grau, pode provocar”. E pode provocar o aumento dos “chamados eventos extremos”, como “secas, furacões, inundações, tempestades, temperaturas muito baixas, temperaturas muito altas; estes chamados eventos extremos acontecerão mais vezes”, até porque, “nos últimos 20 anos, tem vindo a acontecer isto com muito mais frequência do que aconteceu nos últimos cem anos”. Igualmente, “o aumento da temperatura irá provocar o aumento do degelo das calotes polares e isto provocará um aumento do nível da água do mar, o qual pode ir dos 20 centímetros até um metro”.

Repor muretes

e subir comportas

Como “as concentrações já aumentaram, e de tal maneira que já produziram efeitos”, e como “não conseguimos extrair da atmosfera os gases que lançámos, eles vão lá continuar, o que quer dizer que vão continuar a produzir efeitos”; por isso, Carlos Borrego propõe medidas de mitigação e de adaptação. “Mitigação no sentido de reduzirmos nos efeitos, diminuir a quantidade de gases; adaptação no sentido de que já sabemos que vão acontecer determinadas situações que são extremas e, portanto, começar a preparar planos para enfrentar essas situações: ondas de calor, ondas de frio, aumento da água do mar, inundações. Tentar começar a prever com maior eficácia quando é que isso pode acontecer e que medidas é que podemos tomar para minimizar estes efeitos”.

Este especialista considera que “a previsão de que, de facto, haja um aumento do nível da ria de Aveiro e do nível do mar é perfeitamente exequível; portanto, temos que pensar seriamente que as comportas que estão à entrada do Canal Central deverão ser aumentadas em 50 centímetros”, até porque, “se houver aumento do nível do mar, vamos aqui ter variações brutais e significativas. É fundamental que as autoridades locais e nacionais tenham consciência de que isto pode suceder, do que é que isto pode dar em termos da necessidade de adaptar para prevenir. Prevenir no sentido de que, a haver um cataclismo desses, haja uma capacidade de deslocar as pessoas sem haver perdas humanas. Vai haver, com certeza, perda de bens, isso é incontestável, mas pelo menos evitar perdas humanas”.

Carlos Borrego diz que, como “a cidade está muito encostada à zona da água, devíamos começar a encontrar alternativas às construções demasiado chegadas aos canais e à própria ria”. Também os muros das marinhas “são fundamentais para garantir que temos protecções efectivas contra a subida da água do mar. Um investimento fundamental é voltar outra vez a repor todos estes muretes adequadamente, de maneira a não ir contra a lógica do que é ecologicamente equilibrado, e, portanto, usar a tecnologia que usavam antigamente e com os materiais locais, e subir os muretes, de maneira a garantir que haja zonas que nunca virão a ser inundadas, e com isto proteger a cidade e outras zonas habitacionais à volta da cidade”.

Amanhã é tarde

O antigo ministro afirma que “há várias medidas que já deviam começar a ser tomadas, que são as tais medidas de prevenção e de mitigação, que, porventura, no futuro, poderão já ser tardias”. Para isso, terá de “haver um plano estratégico que tenha em linha de conta quais são as medidas que devem ser tomadas já e aquelas que podem ser tomadas ao longo do tempo. Há medidas que, não tenho dúvidas, deveriam ser imediatamente pensadas, como as que têm a ver com a questão dos fogos aqui na zona perto de Aveiro. Há medidas que podem esperar mais algum tempo, mas todas elas deviam começar já a ser postas no papel e à frente delas a pôr os euros necessários para nós sabermos o que isso nos vai custar, sabermos quem vai pagar e como. Estamos a falar em questões em que, na sua maior parte, estão vidas humanas em perigo. Viu-se o que aconteceu com o «Catrina», vimos o que tem vindo a acontecer ao longo destes anos com furacões cada vez com mais intensidade e a tocar em maior número de pessoas. Acho que já temos à nossa frente exemplos suficientes para sabermos que a prevenção neste processo é absolutamente fundamental. A prevenção passa por um planeamento adequado do ponto de vista de quais são aquelas medidas que podem ser introduzidas agora, aquelas que deverão ser introduzidas a médio prazo, aquelas que são de adaptação e aquelas que são estratégicas e de fundo”.

O que já foi observado

– As concentrações de dióxido de carbono (o principal gás de efeito estufa) na atmosfera aumentaram de 280 ppm (parte por milhões) antes da era industrial para 379 ppm, enquanto as concentrações de metano mais que duplicaram.

– 11 dos últimos 12 anos foram os mais quentes desde que há registos (1850).

– Os glaciares e o manto de neve nas montanhas têm vindo a diminuir

– O nível do mar subiu a um ritmo de 1,8 milímetros por ano, entre 1961 e 2003. No séc. XX, o mar subiu 0,17 metros.

– A extensão de gelo no Ártico reduziu-se 2,7 % por década, desde 1978.

– As zonas cobertas por neve no Hemisfério Norte têm vindo a diminuir.

– A duração e a intensidade das secas aumentaram desde os anos 70, sobretudo nas regiões tropicais e subtropicais.

Previsões para o nosso século

Na passagem de Al Gore por Lisboa, ficou o alerta. O nível do mar pode subir até 7 metros. Sem tantos alarmismos, os cientistas são consensuais nos seguintes pontos: 1) O nível das águas do mar vai subir entre 28 cm e 59 cm nas próximas décadas; 2) As temperaturas vão subir entre 2º C e 4,5º C; 3) no Oceano Ártico, poderão deixar de existir áreas geladas; 4) Haverá mais chuvas torrenciais, recuo dos glaciares, mais secas e ondas de calor.

Fonte: Jornal Público de 3 de Fevereiro de 2007, citando o relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, elaborado por centenas de cientistas e apresentado no dia 2 de Fevereiro em Paris.