No último Fórum do Centro Universitário Fé e Cultura, sobressaiu a relação umbilical entre a cidade de Aveiro e a Ria. “Aveiro existe graças à Ria” e “Aveiro e a Ria de braços dados” foram algumas das frases ditas sobre esta relação. Mas também: “A Ria está abandonada” ou “Quem dá um passeio na Ria desanima” (por causa do lixo e degradação que se vêem). Numa “conversa aberta”, moderada pela docente universitária Teresa Fidélis, na noite de 7 de Fevereiro, tiveram a palavra Monsenhor João Gonçalves Gaspar, historiador e vigário-geral da Diocese, e Élio Maia, presidente da Câmara Municipal de Aveiro que sugeriu a criação de uma Fundação para a Ria. O público contribuiu com intervenções apaixonadas.
Entre outras imagens de Aveiro nos séculos passados, Mons. João Gaspar apresentou mapas da evolução do litoral aveirense nos últimos milénios até à fixação da Barra, em 1808. Este último facto, “foi de excepcional importância”, pois “veio pôr termo a longas e frequentes tragédias”. “A nossa cidade, por sua parte, nunca mais deixaria de ver subir constantemente o seu índice de progresso e de crescer no ritmo demográfico, aliás, mercê também de outras futuras e poderosas convergências”.
Ilha ao largo de Aveiro?
Porque a geografia era muito diferente nos séculos passados, Mons. João Gaspar levanta a hipótese de a ilha referida por um historiador grego, que narrou as conquistas romanas, se situar no litoral aveirense: “Conta Dião Cássio, historiador grego falecido em 240 d. C., na sua “História Romana”, onde se encontram preciosos elementos sobre a Lusitânia, que Júlio César, então questor, derrotando a corajosa valentia dos guerrilheiros dos Montes Hermínios [Viriato e Sertório], perseguiu-os até ao Oceano Atlântico. Um grupo deles refugiou-se numa ilha junto à costa. Alguns militares de César, em pequenos barcos, pretenderam atacá-los; mas a corrente marítima apresentou-se-lhes inesperada e foi-lhes adversa, sendo impiedosamente dizimados pelos lusitanos. Recebidos reforços, vindos de Cádis por mar, os romanos acabaram por vencer. Uma vez que a frota, antes de regressar ao sul, ainda navegou até à Corunha, supõe-se que a referida ilha se situava no litoral alavariense. Assassinado o general Sertório por traição, no ano 72 a.C., foi finalmente aberta aos romanos a porta da Lusitânia”.
Salinas em Eixo e Alquerubim
No séc. X d.C., ainda a costa tinha a forma de uma comprida baía. Sabe-se, por documentos dos séc. X e XI, que o sal era fabricado não apenas em Ílhavo, Vagos, Soza e Boco, mas também em Esgueira, Eixo e Alquerubim.
Barra móvel
A ligação da Ria ao Mar variou ao longo dos tempos. Por volta de 1200, achava-se na Torreira. No final do séc. XV, quase obstruída, encontrava-se em S. Jacinto; algumas décadas depois, estava na Costa Nova do Prado. Em 1575, um inverno tempestuoso quase a obstruiu, permitindo apenas a navegação de pequenas embarcações. No séc. XVII, a barra encontrava-se na Vagueira. Em 1756, estava no limite actual do concelho de Mira. Em 1808, com obras que utilizaram as pedras da muralha de Aveiro, a barra foi definitivamente fixada no local actual.
População de Aveiro ao sabor da barra
A população de Aveiro flutuou consoante a barra se situou perto de Aveiro e permitiu não só a navegação de grandes embarcações como a renovação e controlo das águas. No séc. XV (barra na Costa Nova), Aveiro tinha 18 mil habitantes. Ao longo do séc. XVII (barra atulhada e mais para sul), a população diminui até aos 4 mil habitantes.
Ria abandonada
Élio Maia considerou que o abandono a que a Ria está votada na actualidade deve-se a factores como o declínio das actividades comerciais a ela associadas e a outros de carácter burocrático. É que a gestão do espaço da Ria está dependente da CCDRC (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro), em Coimbra, desde que deixou de estar dependente da Junta Autónoma do Porto de Aveiro. Por outro lado, “para espetar uma estaca na Ria”, disse Élio Maia, é preciso pedir autorização a dezenas de organismos, o que dificulta qualquer acção. O presidente da Câmara de Aveiro referiu que os agentes económicos têm esbarrado com demasiada burocracia nos processos de licenciamento de actividades, como um restaurante flutuante. “Percebendo que os processos podem demorar vários anos e, no fim, pode voltar tudo ao ponto de partida, os agentes desistem”, afirmou.
Quatro ideias-chave
Reportando-se às Jornadas da Ria, que decorreram em Outubro passado e em breve terão as suas conclusões publicadas, Élio Maia sublinhou “quatro grandes caminhos”:
– criação de uma estrutura de coordenação com perspectiva global ao nível da AMRia – Associação de Municípios da Ria (“uma pessoa ou estrutura com visão global a quem saibamos que nos podemos dirigir”);
– criação de um fórum ou fundação global da Ria de Aveiro, com a participação da sociedade civil, para aproveitar os fundos que estão disponíveis pelo QREN, até 2013;
– elaboração de um plano de acção que articule os planos municipais e da AmRia;
– cobertura legal às iniciativas anteriores, no âmbito da Lei da Água.
Estes quatro caminhos serão apresentados publicamente e poderão depois ser enriquecidos por cidadãos de Aveiro e de todo este espaço que é abrangido pela Ria.
A solução
O presidente da Câmara afirmou que o muito que há a fazer tem de começar por cada aveirense. “Apesar de nenhum de nós se sentir espelhado no que é a Ria, não adianta atirar as culpas ao outros. Culpados? Somos nós. A solução? Começa por nós. Temos de assumir essa responsabilidade!”
