“Se um bebé transtorna tanto a vida, por que não nos matam agora, que damos muito mais trabalho?”

Foi a resposta daquela rapariguinha de 12 anos que me fez perceber, objectivamente, aquilo que há muito se afirma. Disse ela, com um trejeito de impaciência face aos argumentos dos seus colegas de que uma mulher não deveria abortar, porque é um bebé que se está a matar, que “mais vale matar até às 10 semanas, em vez de se abandonar a criança ou dar-lhe maus-tratos.” Já tinha ouvido esta opinião a várias pessoas, homens e mulheres, de diferentes níveis etários. Mas… foi ali que compreendi que parece não haver problema em matar. Banalizou-se a ideia de que tirar a vida a outrem é justificável.

Foi o comentário de uma outra rapariguinha de 12 anos que me fez perceber, inequivocamente, que o argumento do projecto de vida da mulher, perturbado por uma gravidez imprevista, é absurdo. Afirmou ela, corada, mas segura de si: “Se dizem que um bebé vem transtornar tanto a vida das pessoas, por que é que não nos matam agora, que damos muito mais trabalho?!”

Foi a atitude empolgada daquele rapaz de 13 anos (que tem a certeza de que a mãe, que lhe falta muitas vezes com o jantar, não gosta dele, porque já lho disse tantas vezes, exercendo violência física e psicológica sobre ele) que me fez perceber, definitivamente, que qualquer pessoa tem direito à vida. Apesar do sofrimento e da angústia que o envolvem, aquele rapaz esquecia-se de si e crescia em frente aos colegas, defendendo quem não pode falar, ele que muitas vezes não tem quem o defenda, ele que muitas vezes não consegue falar.

Foi a observação em voz baixa que aquele outro fez, dizendo que tantas crianças nascem em famílias carenciadas e sem condições, mas que são felizes e se tornam pessoas importantes, que me fez perceber, enfim, que pessoas importantes somos todos nós. Pessoas felizes poderíamos ser todos, se não nos deixássemos reger por ideias deterministas, de que é impossível fugir a um destino traçado superiormente. Bastará dar uma hipótese à vida.

Por isso, digo, enfim, objectivamente, inequivocamente e definitivamente NÃO à pergunta do referendo.