A Árvore de Zaqueu*
* «Porque era de baixa estatura, subiu a uma árvore para ver Jesus» (Lucas 19,3-4)
Se treparmos até ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.
2.º Domingo do Advento (Ano C)
1.ª Leitura: Livro do profeta Baruc 5,1-9
2.ª Leitura: Carta de S. Paulo aos Filipenses 1,4-11
Evangelho: S. Lucas 3,1-6
A sabedoria dos tempos diz que a nossa dor é o terreno mais fértil para semear e o mais sólido para construir. As lágrimas são sinal da consciência dos limites que nos afectam, mas também das virtualidades. Em cada lágrima vai a nossa vida: a energia do trabalho, a força dos nossos afectos, a sede de mais justiça e a alegria ou esperança de bons momentos. Mais tristes ou mais alegres, as lágrimas soltam-se, assim, de um abraço com a vida. E humedecem a terra em que devemos florir e frutificar.
Por isso, se soubermos semear «nas lágrimas», trabalharemos não «com lágrimas» mas «com alegria».
S. Paulo (2.ª leitura) manifesta a alegria das suas lágrimas, durante uma das várias «estadias» em prisão, incerto do seu destino: «Sempre que me lembro de vós, dou graças a Deus» (1,3), porque dais bom exemplo do cuidado pelos outros e ganhais assim o fino sentido do que é melhor.
E a 1.ª leitura fala-nos de Baruc, secretário do profeta Jeremias, durante a deportação dos Judeus em Babilónia, no séc. VI antes de Cristo. Deixou-nos orações de esperança e poemas à Sabedoria. Chama a Jerusalém «Paz da Justiça e Glória da Piedade», porque aprendeu a semear na humilhação e sofrimento. Quem procura a Justiça encontra a Paz, com o esplendor da «Piedade» – este conceito, hoje em dia com sabor a ridículo, designava, na cultura do Antigo Testamento, uma relação mútua implicando ajuda eficaz e fiel. Na relação com Deus, corresponde a uma afeição filial confiante e alegre. No Novo Testamento, Jesus é exemplo da autêntica piedade, reforçando o espírito filial para com Deus e condenando expressões de hipocrisia.
«Voltaram como filhos de reis», diz ainda Baruc. É o grande «regresso na alegria», em que veremos como os cuidados deste mundo se foram transformando em veredas direitas, agradáveis de percorrer, porque trabalhámos para construir um digno «caminho do Senhor» – o evangelho cita o profeta Isaías (40,3-5), mas este profeta salienta que se trata de construir um caminho onde Deus se possa manifestar e que as pessoas possam percorrer sem obstáculos que as desorientem. Já é portanto um caminho feito com Deus, em que O tomamos por conselheiro e «animador» dos trabalhos de «conversão» (mudança de mentalidade, segundo o termo grego «metanóia»; porém, no Antigo Testamento, sobressai o sentido bem concreto de tomar uma nova direcção).
«Think positive» – será o lema das leituras de hoje. Com efeito, não se referem apenas à colheita «no fim dos tempos», mas ao semear e recolher nesta vida. Fazendo dos cuidados do mundo o caminho de Deus, descobrimos neles a alegria de quem se esforça pela Justiça. A Justiça é o remédio que Deus parece propor para a cada vez mais necessária «saúde mental». As depressões, não nascem elas da injustiça que nos rodeia e da qual cada um de nós, «poderosos ou humildes», pode ser conivente ou «abstencionista»?
A oração da liturgia de hoje pede a Deus «que os cuidados deste mundo não sejam obstáculo para caminhar generosamente ao encontro de Cristo». Porém, o resto da oração mais parece pedinchar «um lugarzinho no céu». Com ligeiras alterações, podia ficar assim: «que a sabedoria do Alto» nos ajude a tirar bom proveito dos «cuidados deste mundo», sem nos afundarmos neles nem perdermos o sentido das coisas.
Os «cuidados do mundo» adquiriram, ao longo de milénios, o significado da excessiva preocupação com o «mundano» que impede o progresso espiritual e religioso. Os «Padres do Deserto», nos primeiros séculos do cristianismo, quiseram libertar-se dos perigos do «mundo» e «tentações da carne», do orgulho, ambição e de toda a maldade, refugiando-se na solidão. Destas correntes e outras semelhantes, nasceu uma visão terrivelmente pessimista e negativa sobre o «mundo». O «mundo» continua a ser a «tudo aquilo que era bom» como projecto de Deus (Génesis 1,3-25), mas é também o espaço-tempo onde o ser humano tem que escolher entre o bem e o mal. Como Jesus, os seus seguidores são «enviados ao mundo» para darem testemunho da Justiça, mas serão perseguidos pelas forças do mal. Acontece que a confusão deste mundo é tanta que chegamos a pensar nele só como terreiro do mal.
Verdade é que veríamos mais claro, se houvesse mais tempo para meditar e reflectir – mas, «neste mundo», o tempo só é dinheiro para demasiada gente, a começar pelos governos, empresários ou «patrões» de toda a ordem (incluindo organizações religiosas), e a acabar nos que sonham não ficar atrás deles. Muita gente não tem tempo para meditar e para estar com a família, porque se vê obrigada a lutar doidamente pelo mínimo de subsistência ou para manter a posição decente que alcançaram – o eterno problema da justiça social; num pólo oposto, há quem se julgue «superior» por não «dar tempo» aos outros.
Na base de tudo, estará a preguiça de pensar… que nos impede a sabedoria de colher alegria até nas lágrimas tristes.
Só dominamos e ganhamos tempo, se dermos tempo à dimensão espiritual e religiosa e ao convívio sincero, que transformam em vida e em alegria os nossos «cuidados».
Manuel Alte da Veiga
