Poço de Jacob – 13 É muito lindo o diálogo de Jesus com a Samaritana. Ela tenta argumentar com questões de ordem ritual, histórica, legal, política, para ver se “pica” o judeu que se lhe atravessa no caminho e lhe pede água. Para ver se ele não se intromete no segredo vergonhoso da sua história pessoal. Jesus permite e faz o jogo dela. Responde calmamente às questões que ela coloca, mas sabe ao que vai. Quer atingir o núcleo da vida dela. Para isso, vai deixando que ela deite fora, pouco a pouco, os seus preconceitos de samaritana, até que, como uma flecha, a deixa sem defesa. Assim é o seu dardo de amor. Deixa-nos vaguear, cada um do seu jeito, até que chegue a hora da verdade e o homem tenha de encarar, de frente, a sua realidade, e tome uma decisão, como Josué: “Eu e minha família seguiremos o Senhor”.
Lembramos Charles de Foucault, Inácio de Loyola, Edith Stein, Maritain, André Frossard e o grande Agostinho, entre tantos e tantos. A situação é simples: “Vai buscar o teu marido”. Entendeu então que a questão do poço ultrapassava águas, baldes, funduras, monte Garizim, ou o que quer que fosse. A questão era o marido, que ela dizia ser dela mas era de outra. Também João Baptista assim falou ao rei Herodes. Não se trata aqui só da condição do casamento, mas da vida em pecado. Cada um de nós tem a face da moeda que o define pecador, além de santo.
E o bonito da vida interior é sabermos que não devemos ter medo de que o Senhor nos confronte com essa face da nossa vida. Humilha, sem dúvida, mas é desse aniquilamento, que brota vida nova. Não adianta negar a página mal escrita da nossa história. Ela está lá e não se apaga. O que importa é virá-la e que as outras sejam mais bem escritas, pouco a pouco até se poder encerrar o livro. Jesus quer que eu seja carta branca para Ele escrever, emendar, reparar, desenhar… como lhe agradar. Deixa que Ele faça de ti o seu Livro Vivo…
P.e Víctor Espadilha
