Hélder Ruivo, 25 anos, de Oliveira do Bairro; Vitor Cardoso, 40 anos, da Gafanha do Carmo, e Leonel Abrantes, 34 anos, de Aguada de Cima. Estão todos a concluir o sexto ano do curso de teologia, frequentando o Seminário dos Olivais e a Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Ao fim de semana colaboram, respetivamente, nas paróquias de Esgueira, Vera Cruz e Oiã.
Vítor Cardoso, Leonel Abrantes e Hélder Ruivo vão ser ordenados diáconos no dia 7 de abril, na Sé de Aveiro. Ao Correio do Vouga revelam como vivem a identidade e vocação sacerdotal.
No final de um retiro espiritual de uma semana, orientado por D. António Marcelino, na Casa Jean Gailhac, na Costa Nova, o ambiente era de boa disposição. Antes de partirem para as paróquias onde colaboram, a quinze dias de serem ordenados diáconos a caminho do presbiterado, os seminaristas revelam o que pensam sobre a vocação, o ser padre e o Papa Francisco.
No princípio, claro, é a vocação. “Padre porquê?”, é a pergunta laçada aos três. Responde Leonel Abrantes: “Porque Deus me chama a isso. A decisão de querer ser padre é fruto de uma descoberta, de uma relação pessoal com Deus, com as mediações que a Igreja nos coloca, o meu pároco, as vivências cristãs, no Secretariado da Pastoral Juvenil e nos Convívios Fraternos… A relação com Deus foi-se alimentando, crescendo, e eu fui percebendo que Deus me chama”.
Vítor Cardoso acrescenta que se é padre para “estar com Ele”. E explica: “No retiro, fizemos eco da passagem dos Discípulos de Emaús. Jesus explica-lhes tudo e, ainda sem o reconheceram, arde-lhes o coração. Passa por aqui a descoberta. Vamos caminhando e vamos querendo sempre ouvir aquele que nos vai chamando com muitos sinais. Na minha caminhada pessoal, desde os 22 anos que sentia a interpelação, mas depois não tinha a coragem para avançar”. Vitor é o mais velho dos três. Entrou no seminário já depois dos 30 anos, tendo trabalhado 14 na empresa Heliflex (Gafanha da Encarnação), enquanto estudava à noite para terminar o 12.º ano. Antes de frequentar os seminários de Leiria, Coimbra e Lisboa – percurso comum aos três – ainda esteve um ano em Itália, numa comunidade de Focolares.
Hélder Ruivo realça o carácter instrumental da vocação sacerdotal: “Numa relação com Deus fui sentindo que Deus me chamava a algo mais concreto. A iniciativa parte de Deus, mas precisa da nossa resposta, sim ou não. Tendo respondido sim e dispondo da minha vida, sou instrumento nas mãos de Deus. Deus tem um projeto salvífico para o seu povo, mas para realizar este projeto precisa de instrumentos e há pessoas que são instrumentos. Considero o ser padre ser um instrumento nas mãos de Deus para levar Deus aos homens e para levar os homens até Deus. O padre é sempre um pastor que caminha com o povo e conduz o povo para Deus, nomeadamente pelos sacramentos”.
Os tempos que correm não são férteis em vocações sacerdotais. É preciso recuar mais de uma década para a Diocese de Aveiro ter três ordenações de padres num só ano. Para mais, a nível mundial, a Igreja viu o dom do sacerdócio ministerial ser manchado pelo pecado e crime da pedofilia. Estas questões preocupam os futuros padres? Pensam eles no risco de fracassar?
“Quando olhamos seriamente para as coisas, podemos pôr a hipótese de algo correr mal”, adianta Leonel Abrantes, “mas se o Senhor nos chama e se nós procurarmos ser fiéis, isto vai correr bem. Com atitudes de confiança, Ele há de ajudar-nos a ultrapassar as tribulações”. Com já alguma experiência no trabalho com jovens, concretiza: “Por vezes os jovens perguntam-me como aceitamos pertencer a uma Igreja com pedofilia. Mas não é por dois ou três, que são uma minoria, que a Igreja há de deixar de propor o que propõe. O nosso caminho não se faz porque dois ou três fizeram asneiras, mas porque com tantos e tantos correu bem”.
Hélder Ruivo não consegue imaginar a hipótese de infelicidade ou frustração ligada à vida sacerdotal. “É uma decisão muito importante a que tomamos. É um passo que não dou sem ter a firme certeza de que é Deus que me chama, que a minha vocação é verdadeira e que quero consagrar a minha vida por inteiro e definitivamente. Tendo isto em conta, não consigo imaginar nem pôr a hipótese de que correrá mal. Se a pusesse deixava uma réstia de incerteza, que não existe. Confio totalmente em Deus, tendo em conta que Deus nos chama com as nossas imperfeições e fraquezas. Sei que sou imperfeito e que nem sempre tudo correrá bem, mas tenho a certeza absoluta neste passo, se não, não valeria a pena avançar”, afirma.
Vitor Cardoso, por seu turno, destaca a importância da família na vocação do padre: “A família que se cria na comunidade e no presbitério é muito saudável e acaba por nos ajudar. Somos chamados a ser uma fraternidade presbiteral. Quando existe uma verdadeira comunhão de sacerdotes, as dificuldades ultrapassam-se facilmente. Vemos, por exemplo em leigos consagrados, que o celibato não é algo inatingível. Temos é que estar enraizados e viver numa família”.
E como veem o perfil do padre nos dias de hoje? “É difícil definir um estereótipo para o padre ideal porque é bom que haja variedade de carismas”, responde Hélder Ruivo. “A Igreja espera que o padre saiba estar com as pessoas, que seja próximo, que tenha um sentido muito profundo, uma identidade sólida, seja um homem de oração, capaz de conduzir as pessoas para Deus, falar de Deus às pessoas”. Leonel Abrantes resume em duas palavras: “O ideal é sempre este: Jesus Cristo. Traduzir isto no tempo concreto passa por ouvir as alegrias, as esperanças, as tristezas, as angústias… É fundamental acompanhar e sabermos dar Deus na vida concreta das pessoas”. Vitor Cardoso acrescenta uma ideia do Apóstolo: “Como dizia São Paulo, «fiz-me tudo para todos para ganhar alguns». Penso que passa por aí o serviço. O padre tem como missão estar ao serviço de todos e não simplesmente do que nos são mais próximos. Tem de ir ao encontro do marginalizado, do pobre, do doente…”
De Bento a Francisco
A conversa com os candidatos a diáconos prolongou-se por outros temas, que agora não são desenvolvidos. Mas um não poderia faltar, já que ainda estamos no rescaldo da transição de Bento para Francisco. Como viveram eles esta mudança? “Viveu-se de maneiras diferentes porque temos sensibilidades diferentes. A grande tónica foi a da esperança, porque o Espírito Santo está a agir, embora não compreendamos todo o alcance de até onde é que isto vai. Certamente que cada um cria relações de empatia com as pessoas, mas o ministério petrino é muito maior do que a pessoa que o exerce…”, responde Leonel Abrantes.
Vítor Cardoso confessa que foi apanhado de surpresa pela renúncia de Bento XVI. “Fui interpelado por algumas pessoas que ficaram tristes com a resignação, mas ao mesmo tempo surgiu um olhar de confiança, porque a Igreja não é nossa, é de Nosso Senhor. Foi Ele que ao longo dos dois milénios a conduziu e a conduz. Por isso, fui dizendo a algumas pessoas uma palavra de esperança. Agora acolhemos este Papa que, sem desvalorizar o ministério de Pedro dos anteriores, olha para os pobres”.
“Pergunta se alguém ficou descontente? Eu não fiquei descontente, fiquei muito chocado, na altura da resignação de Bento XVI. E triste”, responde Hélder Ruivo. “Depois foi passando. O Papa decidiu livremente. Se ao longo do seu pontificado fomos acolhendo filialmente as suas indicações para a Igreja, também temos de acolher a decisão da renúncia. Agora, as primeiras impressões do papa Francisco são muito positivas. Quando Bento XVI foi eleito, dizia-se que ir a ser muito difícil porque sucedia ao carismático João Paulo II, que tinha tido um pontificado longo. Agora, penso que o Papa Francisco também tem a dificuldade de suceder a Bento XVI, que também foi marcante e tem um magistério riquíssimo. Como costuma haver uma certa alternância, se Bento era mais doutrinal, Francisco será mais pastoral”.
J.P.F.
