Silêncio

O filme “Silêncio”, realizado pelo norte-americano Martin Scorsese, sobre os padres portugueses que apostaram durante as perseguições aos cristãos no séc. XVII, quando o Japão se fechou ao mundo, tem provocado curiosos debates nos círculos católicos.
A temática pouco dirá a quem não partilha a fé cristã. Mas quem se sente cristão, que é sempre sentir pelo menos um bocadinho de paixão por Cristo, e, para mais, ouve no filme palavras portuguesas como “paraíso”, “cristãos” ou “Deus”, dificilmente fica indiferente. Pode não gostar do filme, desejando que os protagonistas sejam heróis como numa primeira leitura – ou visão – parece que não podem ser. Pode desejar-se no papel dos protagonistas, com força para nunca pisar uma imagem de Cristo ou de Maria nem cuspir no crucifixo, como se pensavam os dois jovens padres que partem para o Japão à procura do mentor, o P.e Cristóvão Ferreira, que existiu mesmo, natural de Torres Vedras. Ironicamente, diz um dos perseguidores, quem tem tanta arrogância é quem nega em primeiro lugar. Ou pode ainda sentir-se como o japonês que denuncia cristãos e dá o exemplo de como pisar imagens e que diz a certa altura que teria sido um excelente cristão num tempo em que não houvesse perseguições.
Não é um filme de leitura direta. Não é típico das grandes obras permitirem várias leituras? Há quem se incomode com a apostasia dos protagonistas. E há quem afirme que eles negam um Deus-Poder para abraçar o Deus-Misericórdia, já que os perseguidores mostram aos padres de que devem renunciar à fé não para salvarem a sua vida mas a de outros cristãos sujeitos a terríveis torturas.
É também um livro sobre o encontro e a oposição de diferentes culturas – e não há fé sem encarnar numa cultura. Ouve-se muitas vezes a palavra “Deuzu”, japonização do português “Deus” ou do espanhol “Deos”, que o grande Francisco Xavier quis para significar Deus depois de tentativas infrutíferas para encontrar no japonês algo equivalente. Tentou “Dainichi”, usado pelos monges zen, com sentido de “princípio vital”. Não era bem isso. Pensou em “Hotoké”, uma das manifestações de Buda. Também não dava. Optou por introduzir a palavra “Deus”. Saberia Francisco Xavier que a adaptação para “Deuzu” podia facilmente soar aos ouvidos japoneses como “Dauso”, que na língua deles significa “grande mentira”? (Jean Lacoutre, “Os Jesuítas”, pág. 180). Talvez seja uma questão para colocar ao P.e Adelino Ascenso, no dia 29, no CUFC (ver página 04).
J.P.F.

 

 

Quando Scorsese agradeceu ao ISCRA
Scorsese foi uma das doze personalidades escolhidas para a exposição e curso “A presença do Cristianismo na Cultura”, promovidos pelo ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro) em 2012/13. O ISCRA informou o realizador nova-iorquino e o realizador agradeceu com muita simpatia o ter sido uma das figuras escolhidas.