P.e Georgino Rocha, artífice principal do segundo Sínodo Diocesano de Aveiro (o primeiro foi em 1944), escreve sobre o importante acontecimento para a renovação da Diocese de Aveiro que foi a caminhada concluída no dia 4 de junho de 1995 e refere alguns passos do pós-sínodo.

O II Sínodo diocesano surge como um projeto de grande alcance pastoral que recolhe os esforços de renovação em curso, os sistematiza e relança, a partir da experiência conjunta de participação e da caminhada de reflexão partilhada ao longo de cinco anos.
Convocado por D. António Marcelino, em Janeiro de 1990, que oficializa sugestões e anúncios prévios, realiza-se em fases progressivas que dão rosto à comunhão e vigor à missão. Destas fases, destacam-se pela sua importância: a do despertar a consciência dos cristãos para a necessidade do trabalho sinodal, a de organizar as estruturas, animar os grupos e as sessões de oração e de estudo dos temas em ordem a obter o consenso possível, após diálogo e questionamento entre os participantes, a da elaboração das orientações pastorais e subsequentes Decisões Sinodais que o bispo de Aveiro aprova com valor jurídico na solene concelebração do Pentecostes de 1995.
Por determinação de D. António Marcelino, segue-se a fase do pós-sínodo que tem um período mais intenso até ao ano 2000 e, depois, se ramifica em outras iniciativas que chegam aos nossos dias. Aponto, com a clareza indispensável, os elementos principais da fase da realização e da implementação.
O treino da dinâmica sinodal intensifica-se na celebração do Dia da Igreja diocesana, celebração para onde convergem os trabalhos pastorais de cada ano, mas experiencia-se de forma especial na fase da preparação próxima para o funcionamento orgânico dos grupos e das assembleias.
A boa vontade de tantas pessoas e a dedicação de numerosos colaboradores e animadores manifestam dons excelentes com que o Espírito Santo acompanha a caminhada em curso. Também a palavra estimulante de D. António Marcelino surge oportuna, não a cortar “asas a quem pretende voar”, mas a indicar a direção do voo a fazer em plena liberdade.
O primeiro ano do itinerário sinodal está centrado no tema da Igreja à luz do Vaticano II e inspira-se na experiência feita na diocese de Tortosa, Catalunha. É tema pórtico que sempre abre horizontes e lança pontes com a sociedade envolvente. Após a sessão da Assembleia, ficam definidas algumas propostas que o bispo de Aveiro assume como orientações pastorais e estabelece que sejam tidas em conta já no ano pastoral seguinte.
As outras sessões debruçam-se sobre temas apresentados pela Comissão Teológica e Pastoral que são debatidos e aprovados na Assembleia anterior: a paróquia, comunidade em renovação; a presença e ação dos cristãos no mundo; convocados para a missão; a comunicação na Igreja e o uso e partilha de bens e serviços.
O número de grupos e de participantes nas sessões mantem-se razoavelmente estável – no começo estão envolvidas mais de três mil pessoas – e é incentivado a crescer com iniciativas locais e diocesanas: oração de crianças e pessoas doentes, semana paroquial do Sínodo, partilha de experiências, cartazes, encenação de “recortes” da caminhada, apelos de D. António Marcelino e do diretor da secretaria sinodal, P.e Manuel António Carvalhais. Intervieram também outros responsáveis, quer diocesanos, quer paroquiais e dos institutos da vida consagrada.
“Para a mim, há três referências fundamentais, declara um cristão de Ílhavo, a que recorro sempre que necessito: A Bíblia, livro da palavra de Deus para todos; os documentos do Vaticano II, livro da Igreja universal; e as Decisões Sinodais, livro da nossa Igreja diocesana”. Bela escala de apreciação dos textos que, em diferentes níveis, se articulam e configuram profundamente.
A celebração do Dia da Igreja diocesana, em 1995, tem uma componente fortemente juvenil por ser o dia mundial dos jovens e por D. António Marcelino querer confiar-lhes de modo especial as Decisões Sinodais como garantia de um futuro de esperança alegre e criativa. E para o confirmar e relançar promove a “Caminhada Sinodal com os Jovens” logo no início do novo Milénio (2003-2004), encarregando de tal missão o respetivo Secretariado diocesano.
A Vigararia da Pastoral Geral é incumbida de organizar e animar o pós-Sínodo em toda a diocese. Elabora, por isso, uma sequência de programas anuais em que repassa a caminhada feita na etapa anterior. O primeiro ano é dedicado às pessoas na Igreja – deveres e direitos dos fiéis e suas consequências práticas; o segundo, às associações e movimentos apostólicos; o terceiro, aos espaços de comunhão e comunidade, especialmente a família e a paróquia; o quarto à Igreja diocesana no seu conjunto e reorganização no quadro da eclesiologia de comunhão e participação; o quinto, ao serviço da Igreja na sociedade. Os três anos finais são vividos em profunda articulação com o projeto Jubilar do Ano Santo da Redenção proposto por João Paulo II para abrir as portas do novo Milénio. O ano 2000 é também assinalado pela celebração do Jubileu dos 25 anos da ordenação episcopal de D. António Marcelino.
As Decisões Sinodais continuam a inspirar o agir da Igreja diocesana, agora em novas modalidades: a revisão de normas pastorais, sobretudo para a iniciação cristã; a relação jubilosa com a Eucaristia e respetivo culto, sobretudo dominical; a caminhada com os Jovens; o plano quinquenal que nos conduz a Missão Jubilar; e, agora, o plano trienal ainda em debate que tem por lema: “Igreja de Aveiro, vive a alegria da misericórdia”. Como facilmente se nota, a oportunidade deste lema é manifesta e está em grande consonância com o estilo pastoral do Papa Francisco e da sua exortação apostólica “O rosto da Misericórdia”, pela qual convoca toda a Igreja para a celebração deste feliz acontecimento.
Há outros elementos que deixam marcas profundas na Igreja diocesana. Salientam-se mais algumas: a beleza do conjunto quando as iniciativas fazem parte de um processo pastoral conscientemente assumido e não são consideradas de modo isolado, sem nexo, nem justificação. A parte tem mais valor integrada no todo, bem como o instante no tempo – diz o Papa Francisco; o ambiente criado é sustentado e potenciado por atitudes e gestos de pessoas e grupos que constituem a base da organização eclesial; a experiência sinodal que expressa de modo feliz o ser e agir da Igreja; o acerto de fazer programas em que todos participam de modo acessível; a paciência da esperança que sabe que “há um tempo para cada coisa” e dá alento a todos os que caminham juntos no mesmo rumo; as modalidades em que pode “desaguar” a sua prossecução.
Parte significativa da Igreja diocesana vive o seu Sínodo que procura aplicar o espírito de reforma eclesial preconizado pelo Vaticano II. Com altos e baixos, como é próprio do ser humano, sobretudo dos seus conjuntos. Com apoios oportunos de suporte e revigoramento que revelam capacidade criativa e mobilizadora; apoios que continuam a ser indispensáveis para que a renovação prossiga na verdade do Evangelho. Com efeito, “Novos caminhos se abrem/ são os caminhos da esperança/ é esta a hora de Deus/ o mundo espera por nós”. Ontem, hoje e sempre!
Georgino Rocha
PRINCIPAIS ETAPAS DA CAMINHADA SINODAL
8 a 11 de dezembro de 1988
Na conclusão do Congresso dos Leigos, perante mais de quatrocentas pessoas, D. António Marcelino anuncia a intenção de realizar um sínodo: “O sínodo diocesano que vamos começar a preparar será, daqui a alguns anos, outra grande etapa do nosso esforço comum de fidelidade a Deus e aos Homens e de renovação da Diocese.”
1 de janeiro de 1990
O Bispo de Aveiro convoca a diocese para o sínodo, “projeto pastoral de grande interesse”.
9 e 10 de junho de 1991
Primeira sessão, culminando a reflexão em grupos ao longo de dois anos sobre “Igreja / Comunhão: Igreja diocesana como comunhão e dinâmica de comunidade, grupos, associações e movimentos”.
1 e 2 de maio de 1992
Primeira parte da segunda sessão sinodal. Tema: “Paróquia, comunidade em renovação”.
4 e 5 de junho de 1992
Segunda parte da segunda sessão sinodal. Tema “Paróquia, comunidade que suscita e educa a fé, celebra a liturgia e ensina a orar que eu vive e promove a caridade”.
15 e 16 de maio de 1993
Terceira assembleia sinodal. Tema: “Presença e ação dos cristãos no mundo”.
10 e 11 de junho de 1994
Quarta sessão sinodal. Tema: “Todos convocados para a Missão”.
1 de maio de 1995
Quinta sessão sinodal. Tema: “Construtores da Comunhão: a comunicação na Igreja e o seu uso e a partilha de bens e serviços”.
4 de junho de 1995
Domingo de Pentecostes. Apresentação e aprovação das decisões sinodais no Seminário e celebração na Sé de Aveiro. D. António Marcelino reconhece que o sínodo não entusiasmou todas as paróquias, serviços ou mesmo “os membros qualificados da comunidade diocesana” e afirma que “a pastoral de subsistência, bem como o individualismo pastoral e apostólico, por mais generosos que sejam não têm futuro na Igreja Diocesana”. Apela à organização dos leigos, ao diálogo com a cultura e à vivência de um “perfil missionário e evangelizador”, que é o “perfil da Igreja e que tem de ser visível em todos os seus membros e comunidades”.
25 de junho de 1995
Celebração do Dia da Igreja Diocesana, em Vagos, sob o lema “Comunhão e missão sempre”. No símbolo da entrega das decisões sinodais aos jovens, o Bispo de Aveiro quis confiar-lhes o futuro da diocese.
1 de setembro de 1995
D. António Marcelino assina o decreto de promulgação das decisões sinodais.
OS GRANDES TEMAS DO SÍNODO
Os principais documentos e as decisões sinodais estão publicados em livro. Os decretos das decisões (18 na primeira edição dos documentos e 20 na segunda, devido ao desdobramento dos temas) dizem respeito aos seguintes assuntos:
Igreja Diocesana
A Igreja na Sociedade Aveirense
Leigos na Igreja
Ministério Ordenado
Vida Consagrada
Pastoral Familiar
Paróquia
Arciprestado
Pastoral Profética
Formação teológica sistemática
Pastoral Litúrgica
Pastoral da Caridade
Partilha de Bens e Serviços
Cristãos na Vida Social
Cristãos na Ação Política
Cristãos no Mundo do Trabalho
Seminário Diocesano
Pastoral das Vocações
A Comunicação na Igreja Diocesana
Ecumenismo

