Sistema e alienação política

Questões Sociais A alienação política alimenta o sistema financeiro desregulado, reforçando a imposição direta do próprio sistema, o nosso colaboracionismo, a contestação sistemática e a mistificação ética, abordadas nos artigos anteriores; a alienação política traduz-se, fundamentalmente, na perda de ligação à realidade, substituindo-a por mistificações. Vivemos, há muito, sob o peso de duas alienações muito poderosas e convergentes; são elas a do mercado e a da reivindicação. A alienação do mercado, também designada «neoliberal», confia ao mercado a solução dos problemas económico-sociais, limita ao mínimo a intervenção do Estado e procura o lucro máximo, mesmo sacrificando o bem comum. A alienação reivindicativa rebela-se contra o mercado, contra o governo – que alegadamente o serve – e reivindica o papel decisivo do Estado a favor do máximo bem-estar, mesmo sem base financeira.

Entre os dois extremismos situa-se a política real, vivida pelos governos (na sua ação invisível, mais ou menos responsável) e os cidadãos, famílias, empresas e outras entidades que procuram viabilizar as atividades económicas, e prosseguir o bem comum, em articulação com o bem-estar de cada pessoa. A política real acontece diariamente, fora dos holofotes, absorvida com as responsabilidades do dia a dia. Acha-se entalada, quase inviabilizada, pelos dois extremismos, e sabe perfeitamente que ficará sempre a perder, qualquer que seja o vencedor. Em qualquer caso, incumbe-lhe pagar os custos das tentativas de solução e de todos os desmandos que vão acontecendo.

Tudo seria diferente se os extremismos deixassem de o ser, e se se integrassem na política real, procurando os consensos possíveis, com três fortes convicções à partida: é prejudicial a vitória dos extremismos; há que respeitar o poder eleito; o diálogo, a negociação e a concertação devem resistir a todas as dificuldades.