Questões Sociais Foi afirmado, no artigo anterior, que estamos a ser capturados pelo sistema financeiro desregulado através de, pelo menos, cinco vias: a imposição direta e sistemática; o nosso colaboracionismo; a contestação sistemática; a mistificação ética; e a alienação política. Abordadas sumariamente, nesse artigo, as três primeiras vias, aflora-se agora a quarta.
A mistificação ética traduz-se especialmente na proclamação de princípios e valores, sem imersão na realidade; mais concretamente, sem propostas viáveis, sem experimentação, sem testemunho… Hoje em dia, em nome dos bons princípios e valores, os contestatários da austeridade exigem que o governo, a União Europeia, o respetivo Banco Central e o Fundo Monetário Internacional resolvam os nossos problemas económico-financeiros, mas parecem ignorar as inúmeras condicionantes a que estas entidades se encontram sujeitas. Reivindicam o crescimento económico e o desenvolvimento, como alternativa à austeridade, mas não dizem como se podem obter, no imediato, os meios necessários para isso. Rejeitam liminarmente o orçamento do Estado, mesmo antes de o conhecerem, mas não apresentam um quadro orçamental que atenue a austeridade, permita honrar os nossos compromissos e promova o crescimento económico e o desenvolvimento. Defendem o abandono do «memorando» da «Troika», a favor dos cidadãos com mais baixos rendimentos, mas prejudicam-nos muito gravemente ao não evitarem o risco de «bancarrota».
Em suma: não conciliam o imperativo da justiça, na partilha de sacrifícios, com o da sobrevivência humana, enquanto não se atingir a justiça. Deste modo, a «troika» e a contestação acham-se estreitamente unidas contra o povo e a favor do empobrecimento.
