Uma pedrada por semana É confrangedor ver homens idosos, para além dos setenta, que toda a vida trabalharam duramente, estender agora a mão à caridade. Tenho-os encontrado nas imediações dos centros de saúde, das farmácias e pelas ruas onde também passo.
São os remédios diários e necessários, que levam metade da magra pensão e obrigam a fazer contas em dois termos permanentes e irrecusáveis: pão ou remédios?
Por tudo isto, neste ano de 2008, para que não se pense que estou raciocinando fora do tempo, choca-nos ver os ordenados astronómicos de uns e as migalhas cada vez menores com que outros têm que se contentar…ou se revoltar.
Quanto custa uma consulta de especialidade que, passados meses ou anos de espera, acabam por atirar para um médico particular? Quanto custam as novas lentes dos óculos, de há anos à espera de substituir as velhas que já só agravam a situação, e que tem mesmo de ser agora para prolongar um pouco a esperança de não ficar arrumado na noite da sua escuridão, que é também a do seu possível desespero?
Pobres dos pobres, cada vez mais pobres. Injustamente.
A mão estendida que ao longo de anos empunhou uma ferramenta, é uma bofetada no rosto de quem governa, de quem se revolve no supérfluo, de quem estraga o que sobra e não olha para quem precisa. A sociedade gera pobres, sempre que ao lado dos pobres há ricos insensíveis que se banqueteiam, e cidadãos amorfos que sossegam a sua consciência, dizendo que sempre assim foi.
António Marcelino
