Ver e reflectir para agir

Segunda parte Conclui-se hoje a publicação da reflexão de D. António Marcelino sobre a Igreja portuguesa em 2008.

7. É visível que a Igreja em Portugal, nas suas dioceses, paróquias, serviços pastorais e movimentos apostólicos, se renovou, em vários aspectos, ao longo dos últimos anos. São muitas as iniciativas válidas, já operadas ou em curso, em relação às acções eclesiais da evangelização, liturgia, exercício da caridade, edificação de comunidades e mostrando o seu compromisso social. Iniciativas alargadas, referentes à formação sistemática dos leigos cristãos, ao apoio às famílias e aos jovens, à partilha multiforme de bens humanos e materiais com terras e igrejas longínquas, pobres de gente e de meios, ao estímulo e formação do voluntariado social, à presença positiva e actuante no mundo da cultura…

Iniciativas ainda que levam à procura de novos caminhos pastorais e ao empenhamento sério de colaboração, de modo a valorizar a sua presença e a acção na sociedade, e que, não raro, se vê obrigada a enfrentar dificuldades surgidas e inexplicáveis, por exemplo no campo do ensino e da solidariedade social, por parte de quem devia conhecer e apreciar a sua acção pública, de ordem humanizante.

As dificuldades correntes não têm impedido a Igreja de agir na sua caminhada. Porém, a natureza da sua missão exige sempre mais, mormente nos tempos que correm, tempos de contínuas mudanças, sociais e culturais, mas frequentemente pobres de valores morais e éticos e de espiritualidade, dominados por um consumismo que fecha os olhos aos necessitados do essencial, e por um hedonismo generalizado e destrutivo de pessoas e de famílias.

O descartável e o vazio, a reacção corrosiva ao essencial e ao permanente, instalaram-se de tal modo na sociedade que minam o sentido da vida, das relações pessoais e da convivência sadia.

8. A Igreja, num esforço de renovação e de abertura ao diálogo, tem de orientar a sua atenção e acção para onde se encontram os problemas que afectam as pessoas e a sociedade e estar cada vez mais próxima delas, das suas tristezas e dores, das suas alegrias e esperanças, dos seus projectos e lutas. (GS1)

Voltar ao Vaticano II, como recomenda o Papa, é dar mais valor à Igreja, Povo de Deus (LG 9 e ss) com toda a riqueza e novidade que Deus lhe outorgou, e com o que comporta e exige uma tal realidade. É dar maior atenção ao diálogo e à relação com as pessoas concretas, à sociedade em mudança e às instituições que nela actuam, a fim de que não perca a sua condição de portadora de bens e valores que não são meramente humanos, sendo em tudo sacramento e sinal da íntima união com Deus e da unidade de todos os homens e mulheres (LG 1). Uma originalidade que se acolhe na fé e se vive e se testemunha com esperança.

Neste ponto, que parece pacífico e de há muito adquirido, o caminho a percorrer é ainda longo e a chamada de atenção do Papa é, por isso mesmo, muito oportuna.

9. Aos olhos de muita gente, e com alguma razão, a Igreja em Portugal aparece como uma instituição que faz a gestão das suas capacidades prevalentemente orientada para conservar o que existe nas diversas comunidades e responder às diversas necessidades de ordem religiosa. Há algo de exagero neste juízo, porque uma pastoral de pura manutenção, ainda que generosa e esforçada, seria hoje uma acção sem sentido no presente e no futuro.

Porém, resta sempre a sensação de que, em muitas coisas, a Igreja corre paralela à vida da sociedade e das pessoas e que as suas estruturas não respondem no dia a dia ao que delas se deve esperar. Alguns exemplos: a catequese, em muitas comunidades, continua a ser coisa de crianças e orientada apenas para os sacramentos, sem nada para os adultos, nem para os que vivem fora de qualquer contacto com a Igreja; as paróquias em meios rurais, por vezes em número exagerado para os habitantes que restam, mantêm hábitos e exigências sem quaisquer perspectivas de futuro; muitos leigos continuam passivos ou entretidos com tradições vazias de conteúdos de fé e dimensão apostólica; persiste e tem aumentado a ausência de cristãos em movimentos apostólicos de actuação no meio, embora tenham aumentado os que gostam mais de serviços do templo…

Há, pois, que ter coragem para rever muitas coisas: ligação e serviço às pessoas concretas; consideração objectiva das estruturas existentes e do seu actual valor; número e condição dos agentes pastorais activos, nomeadamente do clero, e dos campos específicos onde se deviam gastar; planos de acção pastoral, frequentemente sem qualquer agressividade ou novidade; apelos prementes e desafios constantes sem resposta adequada, por parte da gente nova, da família, do mundo da cultura, dos que lutam pela justiça, dos excluídos sociais, dos que deixam a Igreja sem outra razão que o terem perdido o interesse por ela; resistência ao trabalho e à vida em equipa; retorno a formas passadas de promoção vocacional, devocionismo, atribuição de honras e títulos honoríficos…

Os leigos estão ainda longe de que lhes seja reconhecido o estatuto que têm, de pleno direito, como membros do Povo de Deus. Os órgãos de diálogo e participação na Igreja, quarenta anos depois do Vaticano II, são geralmente pobres de reflexão, submetidos à opinião de quem preside e, ainda, sem que haja explicação que o justifique. No entanto, também o Concílio o afirma, sem leigos cristãos, reconhecidos, formados e participativos, a Igreja não se poderá considerar verdadeira Igreja de Jesus Cristo.(AdG 11 e 21)

10. Esta reflexão não será consequente, se não se fizer em comunhão com os mais responsáveis da Igreja, sempre numa dimensão de Povo de Deus e não apenas de hierarquia.

Cada diocese, com o seu bispo e respectivos conselhos, em assembleias ocasionais de membros diversos do Povo de Deus, parece dever ter como urgente uma reflexão séria e serena sobre a sua realidade, as estruturas pessoais e territoriais, os desafios sentidos, as respostas dadas ou a dar numa perspectiva evangelizadora. Muitos cristãos, humanamente válidos, estão subalimentados e não passam de baptizados pagãos. Não se chega a eles senão em momentos determinados, e então mais por exigências de leis canónicas e de normas disciplinares que, no caso, é o pior meio de abordar e de chegar.

A Conferência Episcopal, como tal, tem um campo próprio, e cada vez mais exigente, que é fundamental num projecto de renovação da Igreja em Portugal. O seu testemunho positivo ou o seu silêncio não são inconsequentes. Pelo que, a sua reflexão, que não se pode reduzir às assembleias plenárias, exige objectividade e realismo na consideração dos problemas actuais; diálogo alargado e sem tabus; espírito claro de comunhão e de serviço; consideração de que não há problemas que, por serem de difícil solução, se devem considerar insolúveis; ausência de influências internas que actuam sem rumor ou de opiniões privilegiadas; procura de estruturas de serviço que actuem no seu seio a nível nacional, nas quais se manifesta a solidariedade efectiva das diversas dioceses; hábito de trabalhar com assessores preparados; compro-misso de total união e fidelidade a linhas de acção, discutidas e programadas em comum para todo o país…

Perante orientações provindas dos serviços da Sé Apostólica e em ordem a uma melhor colaboração com o Papa no exercício do seu ministério pastoral, a Conferência Episcopal não se pode coibir de reflectir para denunciar, se for caso, medidas desajustadas ao serviço das igrejas particulares e locais ou desatenções provindas de uma centralidade de governo eclesial, desnecessária para salvaguardar a fé comum e impeditiva de uma acção que respeite a realidade, as exigências da vida e das pessoas e o normal direito à criatividade.

Muitas coisas se pedem à Igreja. A força da fé que a anima e o testemunho da esperança que ilumina o seu caminho nunca deixarão que os seus membros mais conscientes e atentos cruzem os braços ou falem de impossíveis, ante as urgências do Reino.