João Rodrigues Seabra, 41 anos, cigano, é mediador sócio-cultural para as comunidades ciganas do concelho de Aveiro. Trabalha entre o Projecto Multi-Sendas (da Cáritas Diocesana, que o contratou como entidade gestora), a divisão da Habitação Social da Câmara Municipal de Aveiro e as 48 famílias ciganas residentes em casas camarárias mais as quatro comunidades em acampamentos (três em Ervideiros, Esgueira/Cacia, e uma em São Bernardo). Nesta entrevista, na sequência do seminário “Mediar para Incluir”, que decorreu no dia 23 de Novembro, fala da sua missão de “facilitador da comunicação”. Não acredita na integração plena da comunidade cigana, mas defende passos firmes de aproximação de ambos os lados. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – O que faz um mediador?
JOÃO SEABRA – O mediador é um facilitador da comunicação entre os serviços e a comunidade de etnia cigana. É também um gestor e mediador de conflitos. Exerço essas funções desde 1 de Outubro de 2009. Há um ano e pouco, portanto.
Em que consiste o seu dia-a-dia de trabalho?
Há três eixos de intervenção em que trabalho: área da habitação, área da educação e área da lúdico-cultural.
Na área da habitação, medeia conflitos com rendas, obras…?
Faço visita às habitações e articulo com os vários departamentos da Câmara Municipal de Aveiro para resolver problemas inerentes às habitações. Faço alguns atendimentos com as técnicas da divisão de habitação social. Implica, por exemplo, sensibilizar a comunidade cigana para as regras que há a cumprir. Muitas vezes não entendem os procedimentos que têm de ser efectuados porque fazem parte da lei.
O caso mais comum é o das obras de melhoria das habitações. Não entendem que para requerer é necessário fazer vários procedimentos. Querem as obras logo na hora. Não têm noção de que há um tempo para esperar e que o pedido tem de passar por várias fases até ser aprovado. E a seguir possa ser executado.
O que faz no campo da educação?
Fazemos um trabalho de articulação com as escolas e de sensibilização dos pais. É importante lembrar-lhes que a educação e a escola são importantes para o futuro dos filhos. Reúno com os professores, com os encarregados de educação e, naturalmente, com os alunos. Sou a ponte para estabelecer o diálogo entre directores de turma e escola e encarregados de educação desses alunos.
É mais solicitado pela escola e pelos directores de turma ou pelos pais?
Mais por parte dos directores de turma.
Normalmente quais os problemas que surgem? Abandono escolar?
O absentismo escolar é o principal. Mas este ano estamo-nos a deparar com outro tipo de problema que é o comportamento desadequado de alguns alunos de etnia cigana.
Quando é chamado à escola por causa de um desses problemas, o que faz a seguir?
O passo seguinte é falar com as famílias. Falo com os responsáveis do Multi-Sendas [projecto da Cáritas; um dos seus objectivos é o sucesso escolar das crianças e jovens ciganos] e articulamos quem irá contactar e sensibilizar a família em causa.
E na área lúdica?
Colaboro e participo na dinamização de actividades de carácter recreativo, lúdicas e culturais, promovidas pelo Multi-Sendas e pela equipa técnica que acompanha os processos do Rendimento Social de Inserção das Famílias.
Tentamos criar algumas iniciativas, mas, de um modo geral, não aderem… Sentem algum constrangimento em cantar e dançar fora da comunidade. Dentro da comunidade, fazem-no.
Qual é o balanço deste primeiro ano de mediação?
Balanço positivo, embora haja algumas dificuldades. O maior aspecto positivo é a abertura e mudança de mentalidades da comunidade cigana, dado que em alguns grupos a escola é pouco valorizada – mas é preciso frisar que é só em alguns grupos. Nós não somos, de modo nenhum, uma etnia homogénea. Há grupos que há muitos anos valorizam e sabem da necessidade de escolarização para prepararem um futuro diferente para eles. Mas é claro que há outros em que isso tem de ser mais trabalhado. Mas é bom verificar que com a continuidade dos projectos, os encarregados de educação começam a responder às solicitações da escola. Aumenta o interesse pela escola.
Há casos que considere de sucesso na escolarização dos alunos de etnia cigana?
Já há ciganos licenciados. Cá em Aveiro, não. Mas conheço um jovem da Ericeira que está no último ano de Engenharia Atómica, um outro, de Lisboa, que é advogado, ou o Carlos Miguel, que é presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras. São exemplos a ser seguidos.
Esses exemplos são conhecidos na comunidade cigana?
Por alguns, sim, mas não pela maioria. Mas não há dúvida de que a educação é o factor essencial para a aproximação entre comunidades e a integração da comunidade cigana.
Como avalia o seu próprio trabalho?
Vejo o meu trabalho como importante porque, além de ser exemplo para eles, é um desbloquear de mentalidades, uma tentativa de mudar a forma da pensar da minha etnia. Eles têm que perceber que temos de mudar urgentemente. Estudar ir à escola não retira de forma nenhuma a nossa cultura, porque está enraizada. Faz parte de nós. Mas vai acrescentar novos conhecimentos favoráveis a uma plena integração na sociedade.
Em algum momento, nas comunidades que visita, foi visto como alguém “do lado de lá”. “Olha, lá vem ele…”
Algumas vezes sim. A princípio não entendiam muito bem a minha função, pelo que pensavam que eu tinha deixado de ser cigano e tinha passado para o outro lado. “Sou, sim, um instrumento para vos aproximar do outro lado”, dizia-lhes. Sou uma ponte para ajudar a comunicar.
Além do absentismo escolar, que outros problemas afectam a educação da comunidade cigana?
Há os comportamentos desadequados na escola, como referi, e noto também uma grande resistência por parte das famílias quanto ao desenvolvimento de outras actividades realizadas fora do bairro. Geralmente não autorizam a participação em actividades pedagógicas e culturais, nem participando eles próprios. Têm constrangimentos em se aproximar. Há um medo.
Medo de quê?
Medo de não serem aceites.
Mas há a ideia de que a comunidade cigana é muito orgulhosa. O cigano tem orgulho em ser cigano. Ou não?
Sim. O cigano tem orgulho. Mas penso que esse orgulho é mais entre nós próprios e não em relação à sociedade maioritária. Há grupos que conseguiram uma integração plena. E há grupos que têm medo de não serem aceites. Têm medo de que a cultura e os costumes não sejam aceites na cultura maioritária.
Há alguns anos falava-se muito da entrada da droga nas comunidades ciganas…
O problema atingiu tanto a comunidade cigana como a sociedade maioritária. Foi e é um flagelo que atingiu muita gente. De facto, trouxe problemas muito graves para a etnia. Houve agregados que perderam vários filhos. Repare: Você necessita. Vive numa pobreza extrema, aparece alguém de fora da etnia – não foram os ciganos que lançaram os ciganos neste negócio – e é difícil resistir. Derivado à necessidade económica, houve famílias que recorreram a essa actividade.
A actividade principal dos ciganos continua a ser o comércio?
Comércio, profissões liberais, empresários em nome individual, comerciantes. Há outros tipos de comércio. A grande maioria da minha família, por exemplo, não é feirante, trabalha com decoração de interiores.
Quais os valores que a comunidade cigana mais preza?
A base da nossa cultura é o respeito: respeito pelos mais velhos, pelo pai, pela mãe. É a grande base da cultura cigana. É algo que valorizamos mesmo. É um traço fundamental da nossa cultura.
O senhor tem o 12.º e pensa em licenciar-se. O seu caso pessoal é um bom exemplo de integração. Sente-se plenamente integrado na sociedade ao mesmo tempo mantém a sua identidade cigana?
Sem dúvida que a mantenho. Jamais me escondo. Tenho orgulho em ser cigano. Se as pessoas me perguntaram, não tenho qualquer problema em me assumir como cigano, embora viva os dois lados. Desde que vivo em Aveiro [a sua família estabeleceu-se em Aveiro há mais de 100 anos, mas João Seabra nasceu em Moçambique], convivo com os dois lados, talvez até mais com a sociedade maioritária.
O meu avô tinha outra noção e outras expectativas em relação a uma plena cidadania e transmitiu isso ao meu pai e aos meus tios. Criou outro tipo de educação que passou aos filhos.
Nos últimos dias, têm surgido notícias que dizem que há estabelecimentos comerciais que, para evitar pessoas de etnia cigana, põem a figura do sapo à porta. O que pensa disto?
Quanto a mim, isso é um mito infundado. É como dizerem que há um agoiro por causa do número 13. A minha família nunca sentiu essa superstição.
Mas é sabido que alguns ciganos têm essa superstição. Quem, sabendo disso, põe sapos à porta, está a ter uma atitude discriminatória. E é essa atitude que peço que comente.
A discriminação só existe se ambas as partes quiserem que exista. Não sei se é uma atitude discriminatória. Eu e alguns familiares costumamos frequentar um café. Ora, um dia, entramos e no café e havia a imagem de um sapo em cima da máquina do tabaco. O dono apressou-se a dizer que aquilo não era para nos afugentar. Nós dissemos-lhe logo que não entendíamos a presença do sapo como qualquer discriminação. Pelo contrário, pegamos no animal ao colo e brincamos com o animal. Acabou por ser um momento divertido. Se algumas pessoas ainda têm medo dos sapos é porque a mente continua um bocado fechada. É uma questão cultural que alguns ainda têm de ultrapassar.
Por que é tão difícil a integração? Há esforço por parte da comunidade maioritária e discriminação ao mesmo tempo…
Tem de haver esforço dos dois lados. A sociedade maioritária tem de estar mais dentro da cultura cigana para haver aproximação. Não falo de integração. Conhecendo a minha etnia e a sociedade. A integração plena só poderá acontecer em diversas fases. Não será uma integração de rompante, tem ser trabalhada, de aproximações sucessivas. Tem se desaparecer o medo que ainda existe numa parte da comunidade cigana para perceber que estar incluída na sociedade maioritária não faz de modo nenhum perder a identidade e os valores culturais. Mas a sociedade maioritária também tem de pôr de lado alguns estigmas que ainda tem em relação à etnia cigana.
