Subsistência empreendedora, no reverso do “país”

Questões Sociais Inúmeras pessoas lutam diariamente pela subsistência, sem disporem de um rendimento assegurado. Neste afã criam inúmeras unidades económicas, formais ou informais, consideradas ou não como empresas. Eleva-se, por certo, a mais de dois milhões o número de trabalhadores, por conta própria ou de outrem, que se encontram nesta situação. O empreendedorismo que praticam obriga à procura diária de negócios, exercendo uma criatividade muito própria e correndo riscos permanentes, incluindo o da falta de rendimentos para a subsistência.

Este esforço empreendedor situa-se no reverso do país convencional e intelectualizado. O Governo não lhes reconhece a identidade própria. As empresas mais legalizadas queixam-se de concorrência desleal. As empresas de maior dimensão sufocam as micro-iniciativas nos abastecimentos de matérias-primas e no escoamento de produtos. As organizações sindicais tratam estes «empresários» como patrões, e até criticam os seus baixos níveis de escolaridade e o seu atrevimento «empresarial», fomentador de subemprego. Os economistas e outros mentores desconhecem, geralmente, esta realidade…

Existe uma tendência muito visível para a eliminação da economia de subsistência; até se considera que tal eliminação é um imperativo do desenvolvimento económico e da dignificação do trabalho. Tudo isto é verdade, em parte, mas também é verdade que a economia mais regular não resolve inúmeros proble-mas de emprego e de rendimentos. Portanto, há que optar: ou pela eliminação da economia de subsistência ou pela sua integração gradual na economia mais regular: a primeira hipótese é a que vem predominando; a segunda parece claramente a mais defensável, até porque os «empresários» e os outros trabalhadores honestos da economia de subsistência lutam por trabalho e rendimentos dignificantes.

São inúmeras as medidas, mais ou menos consagradas, que se defendem a favor da integração da economia de subsistência na mais regular. Figuram entre essas medidas: o apoio técnico, o apoio à formação e à gestão, os benefícios fiscais, o financimento adequado e a cooperação no escoamento de produções. Porém, já se daria um passo muito importante se fossem tomadas duas «pequenas» medidas, pouco dispendiosas, que até beneficiariam as empresas em geral: uma consistiria na simplificação da concessão de licenças para o exercício de actividades económicas; e a outra respeitaria à aplicação do princípio da gradualidade. Este princípio implica a previsão, na lei, de prazos e facilidades para a legalização de situações irregulares; e implica, igualmente, que a lei se adapte às realidades do país, sem prejuízo dos princípios a ter em conta. No fundo, o importante é que o Estado deixe de se posicionar contra a economia de subsistência e contra as empresas em geral.