Para que não andem ao engano
Livros: Homero, Ilíada e Odisseia nas versões de Frederico Lourenço (Ed. Cotovia, 2003, 2005). Porquê? Porque está lá tudo. Melhor, só a Bíblia. Ainda: Thomas Mann, “A Montanha Mágica” (Livros do Brasil), porque revela quão frágil e ameaçada está sempre a liberdade dos homens. E ainda Cervantes, “D. Quixote”, nas traduções de Serras Pereira ou de José Bento (Lisboa, D. Quixote ou Relógio d’Água, 2005). Porque «el famoso don Quijote de la Mancha (…) fue el más casto enamorado y el más valiente caballero que de» Quatrocientos «años a esta parte se vio». Porque já tem musgo de quatro séculos e não parece…
Locais: Mosteiro de Seiça, em Lavos (Figueira da Foz), porque é uma dor de alma.
Santa Maria de Maceira-Dão, porque é outra dor de alma. Dois mosteiros cistercienses que testemunham o desprezo, a incúria com que tratamos a nossa história. Dois monumentos bem perto de Aveiro que mostram quão criminosa foi a liberal extinção das ordens religiosas.
Filmes: “Tróia”, porque não presta, embora encha os olhos. “A corda”, de Hitchcock, porque é do melhor que há e o mestre é… o mestre. “The Lion in Winter”, de James Goldman (com Peter O’Toole, Katharine Hepburn e Anthony Hopkins, 1968), porque é quase tão bom quanto os livros que acima recomendei (ocasião para ver o jovem e já diabólico Hopkins). “Becket”, de Peter Glenville (com Richard Burton e Peter O’Toole, 1964), porque nunca mais sai em DVD. “A man for all seasons”, de Fred Zinnemann (1966), porque a história de Thomas More, como a de Tomas Becket, é muito actual e convinha que os cristãos a conhecessem para… não andarem ao engano…
Belmiro Pereira, professor universitário, membro da ADAV
A voz do silêncio por ali se faz ouvir
Quem nasceu e vive com o som do mar a embalar o seu adormecer, e sente, ao acordar, as ondas a espraiarem-se na praia, não pode deixar de sonhar, também, com a silhueta dos picos da serra, que ao longe nos desafia. A primeira vez que fui à serra e à medida que me aproximava dela, os meus olhos de menino pouco viajado ficaram deslumbrados. Senti um não sei quê na alma, um prazer inexplicável que ainda hoje, tantos anos depois, é um mistério no meu espírito. À serra vou sempre que posso e às vezes até juro a mim mesmo que um dia por lá hei-de ficar uns tempos largos, para calcorrear montes e vales, entre vegetação luxuriante ou entre penedos com formas estranhas de figuras fantásticas que enriquecem o imaginário de qualquer um.
Há dias fui ao Caramulo à procura desses ares límpidos, alimentados, e de que maneira, pelo verde que tudo enche, ao som de regatos que deslizam do cimo dos montes, por entre pedregulhos que amplificam o cantar da água saltitante que apetece beber a toda a hora. E quando a sede aperta, como apertou depois de um almoço de vitela assada que só por ali tem um sabor como em nenhuma outra parte, então foi um regalo beber uns bons copos de água de fonte natural, recebida em bilha de barro vermelho que a tornou mais fresca.
Campo de Besteiros, São Tiago de Besteiros, Guardão, Janardo, Pedronhe e Cabeço da Neve foram alguns recantos da Serra do Caramulo, que uma vez mais pude contemplar em dia partilhado com amigos que não esconderam o sortilégio que estas terras transmitem a todos os que chegam. Ruas e estradas amplas ao lado de ruelas empedradas que lembram tempos ancestrais, histórias de lutas travadas entre íncolas serranos e povos invasores, casario a cair de podre porque gente teve de emigrar, habitações com sinais de quem regressou à terra depois de muito trabalhar e de lutar na estranja, sanatórios abandonados porque os tuberculosos já se curam em casa, sem a ajuda dos ares puros da serra, de tudo um pouco se foi fixando na retina dos meus olhos, que nunca se cansaram de apreciar de miradouros naturais a paisagem a perder de vista.
Para os contemplativos, a Serra do Caramulo é uma bênção de Deus. Ali, longe dos habituais horizontes, sinto que a beleza não adulterada pelo mau gosto, em muitíssimos recantos, oferece a quem a visita a imagem do divino, que o céu contempla e abençoa com nuvens que baptizam aspergindo tudo e todos.
A voz do silêncio que tantas vezes se fez ouvir, aqui e ali perturbada pela cantilena da água que descia apressada do cimo dos montes, à cata de gente que a saboreasse, ainda mais me convidava a cultivar a necessidade de voltar. O que farei sempre que puder, para encher os pulmões de ares puros e os pensamentos do aconchego do bem e do belo.
Proponho, ainda, a leitura de um livro, “Os poemas da minha vida”, de Marcelo Rebelo de Sousa. A edição é do “Público” e custa uns simples 6 euros. É-me sempre agradável apreciar a escolha de poemas feita seja por quem for. Como que sinto a sensibilidade e a alma de quem opta por este autor, por este ou por aquele poema.
Marcelo Rebelo de Sousa diz, no texto introdutório, que se decidiu por escolher poemas e poetas portugueses contemporâneos, do seu tempo. “Do tempo que vivi e vivo”, referiu.
Logo depois admite que terá ficado uma selecção “decepcionante” do seu “tão significativo passado”, passado esse que nunca esquece. Ainda assim, diz que escolheu “o presente e o futuro”, na linha do seu “modo de ser”.
Por esta selecção de Marcelo passam poetas de Língua Portuguesa dos anos 50, 60, 70, 80 e 90, até hoje, que também proporcionam ao leitor, que gosta de poesia, momentos de encantamento.
O meu voto é que nas férias que se avizinham muitos aproveitem para cultivar o espírito, na certeza de que o corpo também lucrará.
Proponho, ainda, um disco da minha conterrânea e amiga Jacinta: Tributo a Bessie Smith, com edição de Blue Note e aposta da TSF. Se não falarmos dos nossos valores, quem o poderá fazer? E não é a Jacinta a primeira artista portuguesa de jazz a ser editada pela Blue Note? Dela sublinha, José Duarte, a dicção, a força interpretativa e a sensibilidade. E a propósito de algumas interpretações de Jacinta, refere que é preciso ouvir, dar a ouvir e popularizar esta obra de arte.
Fernando Martins
(continua na próxima semana)
