Surpresa

A surpresa repete-se. O Banco Alimentar promoveu a sua recolha de Natal e os portugueses responderam generosamente ao apelo à solidariedade, apesar dos tempos de aguda crise que atravessamos. Os pobres sabem sempre repartir!

Sim! Os pobres sabem sempre repartir! Se fosse possível fazer a estatística de quem ofereceu, não tenho dúvidas: encontraríamos muitas “viúvas do evangelho” a dar daquilo que lhes faz falta, enquanto, daqueles que deram sobras, a maioria terá dado o mínimo do supérfluo, não arriscando libertar-se das algemas do ter.

As injustiças subsistem. Numa sociedade de raízes cristãs, o fermento do Evangelho tem dificuldades em progredir, porque a pandemia do individualismo consumista, a febre do lucro e idolatria do ter bloqueiam o coração humano, tornando-o indiferente aos outros, retirando-lhe a capacidade de partilha.

É, na verdade, surpreendente a cifra da tonelagem de géneros recolhidos para repartir com a crescente multidão dos famintos. É essa generosidade que continua a salvar de catástrofes humanitárias ou a dar-lhes remédio. E, porque se repete, não é apenas “balão de oxigénio” ocasional, mas esperança de sucessivas superações dos estados de carência.

Mas isto não dispensa dos esforços na mudança de paradigma de organização social e económica. Porque essa será a atmosfera que consagrará a civilização da partilha, vencendo definitivamente os hábitos de egoísmo divisionista. A história já comprovou, de forma clara, a perversão quer do colectivismo marxista quer do capitalismo liberal. A inspiração operativa que brota da Doutrina Social da Igreja, ao colocar a inviolável dignidade da pessoa humana no centro e como referencial de toda a programação social, económica e política, é a via justa para a posse e uso dos bens materiais.

Multiplicam-se as iniciativas de solidariedade, em diversos círculos, sob diferentes formas. Também numa universidade surgiu uma acção de cariz semelhante. Louvável, sem dúvida, pois sabemos que, no mundo universitário, vive hoje muita gente de parcos recursos, proveniente de famílias muito modestas. E as circunstâncias presentes impõem drásticos limites à capacidade de sustentar filhos na universidade.

Também aqui haveria que mudar alguns paradigmas, desde a atribuição de bolsas, viciada não poucas vezes por esquemas de ocultação de rendimentos, até aos hábitos dos próprios estudantes, os quais nem sempre se pautam por comportamentos de sobriedade. Também é certo que uma falsa ideia de igualdade generalizou a ideia de que “ou pagam todos ou não paga nenhum”. Que pague quem pode, para que também possa estudar quem não tem meios! Esse seria o paradigma de justiça social, porque os bens, mesmo de propriedade privada, têm, no projecto de Deus, uma finalidade social.