“Tal como pai e mãe se reveem num filho, Deus revê-se numa família”

Tudo em Família Por iniciativa da Escola de Pais da Paróquia da Vera Cruz, esteve em Aveiro, dia 10 de março, o padre jesuíta Carlos Carneiro, que falou da «Família, um sonho no plano de Deus». Pontos fortes da comunicação recolhidos e resumidos por João Manuel Querido.

Família,

um sonho de Deus

Deus ama e só quem ama sonha. Deus é o amor em pessoa e assim a família é um lugar onde mais se pode experimentar o amor que é Deus. Ela é assim uma capela, um santuário onde Deus mora. Ou seja, tal como pai e mãe se reveem num filho, Deus revê-se numa família. No amor de uma família há as mesmas características do amor de Deus. «Que na vossa família se veja quem é Deus», exulta o jesuíta quando preside a um matrimónio.

Os sonhos são frágeis

e necessitam

da fidelidade

Só que os sonhos não têm uma garantia de segurança. Procuramos a fidelidade de um eletrodoméstico mas não exigimos isso às pessoas. A fidelidade ficou na gaveta do dever, do tem de ser, quando deveria estar antes na gaveta da alegria, da festa, do gozo. Para que Deus possa sonhar, é necessária a fidelidade, há condições que têm de ser satisfeitas, uma das quais é a fidelidade.

A fidelidade

só é possível

com a ajuda de Deus

Só num matrimónio católico, cada uma das partes jura “ser fiel, amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da nossa vida, até que a morte nos separe” porque temos a vontade de Deus por trás, doutro modo nunca poderíamos jurar esta fidelidade. Jesus declara o seu amor à humanidade quando cada casal se casa na Igreja. É por isso que o matrimónio é um sacramento, é um sinal do amor de Deus. É como se cada um dissesse que assume a missão de mostrar Deus ao mundo através do amor que sinto pelo outro. «Não separe o que Deus, não o padre, uniu».

O Amor é fruto

de um projeto

O amor não se improvisa, é fruto de uma história e é diferente de uma paixão: Esta não dura muito tempo e é, apenas, a pré-história de uma história de amor. É necessária, sim, mas não é suficiente para manter uma relação. Aqui o orador fez um parêntese para assinalar a sua estranheza quanto às despedidas de solteiro «mas despedir de quê? da liberdade? E fazê-la com pessoas que mostram o seu umbigo porquê? Depois não terão um umbigo para comtemplar?») e a sua revolta quanto ao dinheiro que se gasta com uma festa de casamento, que o orador qualificou de pecaminoso, concluindo que casar é para quem pode e que a missão de um casal é …continuar casado!

Nesse projeto as pessoas

vão-se casando

O dia de casamento é apenas o primeiro dia de uma história de amor. Ou seja, a partir daí, cada um vai-se casar o número de vezes que forem precisas durante a sua vida. Numa comparação muito feliz, o casamento será como um harmónio que uns dias fecha, quando há uma zanga ou afastamento, noutros abre, quando há uma reconciliação e aí, nessa reconciliação, os dois casam-se de novo.

Nesse projeto vamos

melhorar a obra de Deus

Quando se passa a vida a criticar o outro ou até o mundo não nos apercebermos que, com essa crítica, estamos a dizer mal da obra de Deus. Tal como a Madre Teresa, que tinha como um seu lema «nunca deixar que uma pessoa que se aproximasse dela partisse igual a como estava antes de a conhecer», também as famílias não podem deixar a realidade como ela estava. Deus quer que as pessoas se conjuguem e transformem o mundo à imagem de Jesus.

Como manter

um matrimónio?

Passada a fase do «sufoco», temos de passar à fase da delicadeza, da ternura, porque senão os casais cansam-se da intensidade e vem a insegurança. Num telefonema, em vez de perguntarem ao outro «Como estás?» passam a perguntar «Onde estás?». Começa a ser a GNR casada com a PSP. Este policiamento revela a insegurança. Temos de ser criativos! Amar é reconhecer que o objetivo de felicidade que eu tenho nunca seria atingido só por mim. E para o atingir temos de ter simultaneamente carinho e sacrifício, delicadeza e ascese, prescindir e abnegar.

Ter o outro dentro de mim

E se um dia ficarmos fascinados por outra pessoa? A resposta será: «Mas o que é que eu faço com isso?» Eu posso estar atraído mas digo que não, não avanço. Isto porque eu tenho a minha esposa, o meu marido, “não como uma pessoa que está ao meu lado mas sobretudo que está dentro de mim”. Tal como tenho os filhos dentro de mim, o outro também está dentro de mim. Só assim se conseguirá ultrapassar, p.e., o momento crítico para tantos casais jovens que é o nascimento do primeiro filho, em que a mulher passa a mãe a tempo inteiro. De repente, para o homem, o filho rouba a esposa e pode começar um afastamento. E vão vivendo a sua vida como pais e só quando os filhos saem de casa é que reparam um no outro, veem o outro na realidade «transformado» e divorciam-se. Primeiro casal, depois pais.

A família é um sonho

inacabado de Deus

Concluindo, o P.e Carlos acrescentou a palavra «inacabado» ao tema desta palestra, porque a família é uma obra que não tem fim. «Casados há 50 anos e ainda não nos conhecemos mas conhecemo-nos tanto! E quando nos falta a paciência, vamos buscá-la a Deus. E como? Rezando. Pois ao orar em conjunto, cada um de nós até tem de olhar para o lado e ver quem é que lá está».

Como acolher

os casais recasados?

No debate, a primeira questão incidiu sobre os casais divorciados e recasados. A sua resposta foi que se deve acolher, acolher sempre, tratando cada situação na sua diversidade, não tratando tudo da mesma maneira. Deus não exclui ninguém da salvação e para isso também a Igreja não pode fechar portas. Tem de abri-las. Lembrou experiências em Lisboa de casais nesta situação que se reúnem em grupos apoiados por um sacerdote. O colo da Igreja é para todos, mas este colo tem de ser simultaneamente exigente e ternurento para que se possam evitar dois perigos: por um lado, cair na intransigência e no fundamentalismo e, por outro lado, evitar a ingenuidade. Como exemplo do primeiro indicou os sacerdotes que ainda acham que uma esposa, por abandonar o lar, mesmo numa situação de violência conjugal, fica, a partir daí, em pecado.

A própria palavra «católico» significa «universal» e, como tal, deve incluir e não excluir. Mas também alertou que um recasado não pode entender o facto de não poder comungar como um castigo pelo seu «mau comportamento», pois a comunhão eucarística não é a única forma de comungar com Deus. Lembrou que há um século as pessoas só comungavam uma vez por ano, na Páscoa, tendo-se passado para o outro extremo em que a comunhão está banalizada: as pessoas vão comungar porque sim, sem fazer qualquer discernimento prévio ou exame de consciência. Não comungar não é ficar excluído da comunhão com Deus, pois isso só Deus pode fazer.

Concluindo, profetizou que mais cedo ou mais tarde a Igreja teria de fazer um Sínodo sobre os divorciados. Talvez aí um canonista possa descobrir no Direito Canónico uma cláusula qualquer, porventura inspirada na experiência das Igrejas orientais, de modo a ultrapassar a situação atual, em que 80% dos recasados deixam de ir à missa.

A Igreja prepara bem

os matrimónios?

Não, não prepara, respondeu. «Os cursos de CPM da Igreja são maus, pouco ousados, muito fracos». A Igreja deve oferecer mais, até do ponto de vista afetivo. Exemplificou com uma paróquia em França, em que este curso leva três anos. No primeiro, dá-se informação; no segundo, os casais ficam com uma missão na paróquia; e no terceiro, finalmente existe formação concreta para a vida matrimonial. Só assim a Igreja poderá ser exigente na questão do casamento.

Como vê o casamento entre pessoas do mesmo sexo?

O P.e Carlos quis reforçar que a Igreja não discrimina ninguém, muito menos pela sua opção sexual embora alerte que uma união desta natureza não é uma relação de complementaridade, mas sim de igualdade e, como tal, defendeu, deveria ter-se chegado a uma outra expressão jurídica diferente do casamento, para evitar a confusão e tratar de um modo diferente o que é, de facto, diferente.