A Árvore de Zaqueu O evangelho fala do poder extraordinário de Jesus para sacudir as pessoas, para as ajudar a «estar em forma» de maneira a melhor saberem servir os outros. No fim de várias histórias de «milagres», a pessoa curada acabada põe-se a ajudar os outros, ou a saltar e brincar, como a menina de doze anos.
«Kum» é uma ordem imperiosa que significa literalmente «de pé!» Em todas as culturas e ainda hoje, a morte é comparada ao adormecer e ao sono. E os termos gregos com que o Novo Testamento refere a ressurreição significam «acordar» e «pôr-se de pé».
E que dizer daquela mulher, já desesperada e arruinada pelo insucesso dos médicos, que «roubou» energia a Jesus, no meio da multidão que se apertava contra ele? Jesus sentiu bem que, no meio de tanta gente entusiasmada, só ela se aproximou com o discernimento da fé: a percepção íntima de uma relação especial com Deus. E Jesus elogiou a força dessa mulher que soube ir ao encontro da força de Deus.
Um Deus amigo e para quem a «salvação» do ser humano não se reduz à pouco motivante consolação de «ir para o céu». Como sublinha a 1.ª leitura, Deus só pode querer a vida para os seres humanos e que estes alcancem a melhor maneira de viver a vida, prontos a acarinhar a vida em cada ser humano, com benefícios a nível material e espiritual.
Ao longo da história da humanidade, sempre se verificou um sentimento multicultural de que a verdadeira realidade, a realidade entrelaçada de divino e humano, implica a superação do sofrimento e da morte; sentimento manifesto no desejo veemente, convertível em fé, de que não seremos enganados.
Como será isto? É o próprio Jesus Cristo quem nos aconselha a pôr de lado tais especulações e a dedicarmo-nos de corpo e alma ao processo desta superação: a luta pelo bem-estar de cada ser humano sem excepção, sem jogadas tortas, sem hipocrisia (Lucas 21,7.34-36; Mateus 24,36). Ele sabia bem como é arriscado ser a sério um homem livre do jogo interesseiro das várias formas do poder – político, religioso, económico… – e dotados da capacidade crítica para ouvir os pontos de vista contrários e aceitar os que são fundamentados.
Seguindo o espírito de Jesus, S. Paulo, no seguimento da passagem do domingo anterior, incita os cristãos de Corinto a orgulharem-se e a sentirem prazer na partilha judiciosa de bens materiais com as comunidades mais pobres. Deixa bem explícito que não devemos ficar mal para ajudar os outros, utilizando o conceito de «igualdade» no uso dos bens deste mundo como ideal correspondente à dignidade que cabe por inteiro a cada ser humano.
Quando temos coragem de agir racionalmente, elevamos o nível da civilização, em todos os aspectos essenciais para uma vida com qualidade: educação, saúde, economia, trabalho, religião, arte… Age racionalmente quem se liberta (quem se «salva») da visão estreita própria dos «irracionais». Porém, muitos seres humanos agem irracionalmente, deixando-se levar pelos «bem-falantes» (frequentemente longe dos problemas e pouco livres para a verdade).
A mensagem de Cristo não é um suspiro de resignação para com este mundo. O final da primeira carta aos Coríntios manda-nos entrar em acção vigorosamente: «Vigiai, sede firmes na fé, sede homens, sede fortes, fazei tudo com amor» (16,13). Jesus Cristo condenou a preguiça do servo que não tirou proveito da sua capacidade (Lucas 19,11-27) e «assusta» as raparigas doidivanas que se deixaram adormecer sem se terem preparado para a noitada duma despedida de solteiro: «De pé! Acordai, que o noivo está mesmo a chegar!» (Mateus 25,1-13).
O sábio do Antigo Testamento pensou muito sobre a vida. S. Paulo pensou muito sobre a «nova humanidade». A acção e as palavras de Jesus Cristo revelaram o que é «nascer de novo» (João 3,3), revelaram o valor da vida e da partilha de mais vida.
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)
