Terceiro tempo: orar

Lectio Divina – 5 A oração resulta como a nossa resposta ao Deus que me falou e me interpelou. Somos convocados pela Palavra e ouvintes da Palavra, a resposta à Palavra é feita no amor e na obediência ao seu projeto na nossa vida. Deus fala-nos da Sua Promessa, da Sua fidelidade e do Seu amor, a nossa resposta neste diálogo tido com Deus vai cheia dos nossos sonhos e esperanças, mas também das nossas expetativas, angústias e falhanços. Colocarmo-nos neste tempo da leitura orante da Bíblia é perguntarmo-nos agora “o que é que o texto em faz dizer a Deus?”. Se quisermos, Maria pode ser exemplo deste tempo, sabendo acolher no seu coração o anúncio do anjo na Palavra que Deus lhe dirige, o Magnificat resulta como uma oração de louvor, respondendo às maravilhas contempladas.

Este tempo de oração, como se percebe, deve nascer da nossa meditação anteriormente feita, e não apenas de uma pura racionalização da nossa vida. Deus fala-nos naquela palavra lida e meditada, e eu respondo-lhe com o coração com os sentimentos e afetos que a Palavra produziu em mim. A minha oração poderá então ser de ação de graças, de louvor, de súplica ou petição…, mas será sempre manifestação da minha vida e das interpelações que Deus produz nela e naquele momento. Posso aproveitar uma frase da Palavra lida e repeti-la, neste momento ou ao longo do dia, assim como apoiar-me num salmo, numa oração que posso escrever no momento ou de alguém que me ajude também a rezar. O importante é que este momento resulte do meu itinerário de vida e me faça encontrar com verdade com o próprio Deus.

Na oração que resulta da leitura orante da palavra é importante ultrapassar dois perigos: da oração meramente ‘espiritualista’ e da oração meramente ‘ativa’.

Os mais próximos de tendências espiritualistas rezam muito, mas correm o perigo de não ter uma visão crítica sobre a própria vida e a vida da comunidade e do mundo; manifestam dificuldade de entrar no texto e no seu contexto e depressa tiram conclusões pessoais e morais e daí resulta uma oração demasiado individualista e de tendência fundamentalista.

Os mais próximos de uma tendência mais ativa ou militante, muitas vezes fazem uma boa abordagem do texto bíblico e de perspicaz tendência crítica até na aplicação e partilha comunitária, mas por vezes falham na perseverança e na fé, querendo muitas vezes saltar imediatamente para conclusões sociais e pessoais e de intervenção no mundo, desvalorizando, por exemplo, longos tempos de oração sem resultado imediato.

Vamo-nos situando nestes perigos, por personalidade e por tendência espiritual, sabendo que a oração que resulta desta leitura orante reflete também o itinerário espiritual de cada um. O importante é a procura de um justo equilíbrio respeitando a verdade do texto, os meus sentimentos e afetos, aquilo que sou capaz de estudar e meditar, sabendo que o Senhor interpela-me sempre em cada leitura e me faz contemplar tantas realidades na minha vida.

João Alves