Uma família

Poço de Jacob – 112 Uma família. Classe média-alta. Os pais conheceram-se ao cruzar uma ponte. Foi uma troca de olhares e amor à primeira vista, literalmente. Ambos tinham tentado o convento, antes, mas não tinham sido aceites. Casaram, pois. Muitos filhos. Nove ao todo. Quatro morreram muito pequeninos, mas já o suficientemente grandes, alguns, para deixarem recordações dolorosas de uma infância travessa. Os dois únicos rapazes morrem bebés. Queriam tanto um filho homem! Talvez viesse a ser padre, diziam. Mas os dois morreram.

O pai, ourives, teve de deixar o seu trabalho, pois a empresa da esposa exigia muitos cuidados. Era rendeira, com muito êxito. Quando tudo corria bem, tinha a filha mais nova tinha três anos, a mãe ficou cancerosa. Em vão as novenas e peregrinações. Até a Lourdes foi. Afinal, tinha filhas para criar e a empresa ia de vento em popa. O marido tinha apostado tudo nessa empresa. E agora… Morreu a mãe. A filha pequenina recordará para sempre a tampa enorme do caixão da mãe.

A sua irmã mais velha substituiria a mãe defunta. Mas, um dia, quis sair de casa e foi para um convento. A pequenina entrou em crise. Quase morreu, não fora um milagre de Nossa Senhora. O pai não sabia mais o que fazer. A esposa querida morta, tão nova e linda. A filha mais velha troca-o pelo convento. A mais nova parecia morrer nos seus braços. Aqueles momentos em que o Céu se fecha sobre a vida de uma pessoa. Quem não passa por isso alguma vez na vida?!. A pequena curou-se. Por dentro e por fora, sobretudo numa noite de Natal.

A outra filha também quer ir para o convento, seguindo o exemplo da irmã. “Meu Deus, vão-se-me as filhas e eu fico só”. Restam a pequenina, a que se lhe seguia e uma que tinha graves problemas psicológicos desde pequena e que fora já a cruz de preocupações da mãe – e sê-lo-á toda a vida de seu pai e mais além.

O pai sempre respeitou as decisões das filhas. Homem de fé, chorava pelos cantos, num “fiat” [“faça-se”] incondicional mas doloroso. Afinal, tinha tudo para ser feliz e tudo lhe estava a ser tirado. E, um dia, a tal pequenina cresce e vai para o convento também. O pai terá dito o “sim” sabe Deus como. A sua pequenina teve a ideia de seguir os passos da irmã. E se fosse como a outra que sofria de distúrbios e que passou grande parte da vida a entrar e siar do convento sem saber o que queria? O pai ficou louco. Fugia. Internado nos hospitais, acabou por perder o uso da razão. Tudo se desmoronou.

O povo chamava cruéis e insensíveis às três filhas metidas num convento, deixando às outras duas o cuidado do pai que enlouquecera, talvez por culpa delas. Uma tragédia! Uma pouca vergonha! Um escândalo! Santinhas do pau oco! Etc. O pai morreu… pudera! A filha que cuidava dele entra no convento também. A outra, pobre e desorientada, fica ao cuidado de um tio, mas terminará noutro convento, já mais cuidada, mas esquecida pelo povo e pela igreja durante anos, até que a tal pequenina, a predileta do pai viúvo e louco, morre aos 24 anos, com tuberculose, e é declarada santa. Seguiram-se os seus pais, bem mais tarde, ao serem beatificados.

Parece a historia trágica de uma família malfadada? Não. É a epopeia de amor de uma família santa e de santos. A família de Santa Teresinha do Menino Jesus… e dos beatos Luís e Zélia Martin… A última das irmãs morre em 1959. Era a Celina. Leonie, a que sofria distúrbios, morre santamente como freira visitandina e hoje o seu túmulo é um lugar de romarias. Família santa, na tragédia do dia a dia, pois estamos no palco da vida. Sofreram, como todas, mas venceram, como muitas, ao dizerem incondicionalmente o seu sim à vontade de Deus! E tu… e eu… estamos a espera de quê para sermos iguais? Lamentar a sorte não resolve. Temos é de viver a aventura do “fiat”.

Vitor Espadilha