A expressão popular não deixa ninguém de fora: “Todos temos telhados de vidro”. O Evangelho consagra o mesmo pensamento de forma inversa: “O que for dito às ocultas será proclamado sobre os telhados”.
A tendência dos poderes instituídos, políticos, sociais, económicos, e mesmo religiosos, é manter uma aparência que nem sempre corresponde à realidade. E não vale a pena atirar pedras ao vizinho, porque, quando menos se pensa, a curiosidade sobrevoa os nossos domínios ou os fumos extravasam os nossos recuperadores de credibilidade.
É evidente que há segredos de Estado, que há estratégias económicas particulares, que há esquemas originais de sucesso social, que há meandros espirituais que não são de colocar na praça pública, que há a sagrada dimensão da privacidade… Não seria possível uma vida, uma orgânica social, política, económica ou religiosa, sem esses espaços de reserva legítima.
Quando eles se tornam instrumentos de manipulação ou dominação, quando eles ultrapassam os limites do aceitável, o mais natural é que suba a tensão, cedam as muralhas e se rebentem as amarras. E aquilo que poderia ser acolhido como um normal procedimento, enquadrado nas janelas da transparência, passa a ser um escândalo.
O povo de um país da América Latina desmascarou a fantasia que lhe era proposta. Não fora a vitória do poder num país de Leste, como dizia alguém, e seria a festa da democracia. O primeiro ministro de um país ocidental teima em adoçar os números assustadores do desemprego; mas as análises serenas desfazem o brilho da economia dourada…
Enfim: é preciso dizer a verdade toda, porque, mais dia menos dia, ela saltará para a consciência individual e colectiva. E o escândalo pode não se ficar pelo escândalo; as reacções populares profundas são, no geral, lentas, às vezes mesmo tardias. Mas, quando acontecerem, não se ficarão pelo escândalo, porque aquilo que dói na carne não provoca apenas reacções do espírito.
A verdade liberta! A humildade de aceitar que a história se constrói com todos e o princípio da transparência, para que todos se sintam construtores, é o caminho do sucesso. A simplicidade de reconhecer que todos os passos dados dentro da história poderão abrir caminhos de esperança, mas precisam dos horizontes do transcendente é um aspecto fundamental da verdade, essencial à harmonia e progresso social.
É evidente que, no agir social e político, a ausência de uma visão da vida que ultrapasse os horizontes do espaço e do tempo depaupera os projectos, não deixa ver com esperança fundada o futuro. Mas que ao menos a luz da honestidade se faça sobre os projectos que põem em questão povos e nações.
