Tempo de purificação e de cura

A ida de Bento XVI aos Estados Unidos constituiu para a Igreja e para a sociedade um grande ensinamento e um apelo à aceitação da verdade na vida, ainda que esta seja incómoda. Não foi revestido de honras, nem à procura de aplausos. Na sua bagagem levava outras preocupações e sentimentos.

Tal como o seu antecessor, anos antes, levou consigo o peso da humilhação pelas chagas da Igreja. Pediu perdão, com palavras e gestos consequentes, a todos e muito especialmente às vítimas das infidelidades e dos desvios morais de gente que devia ser testemunha de bem e companheira de caminhos de felicidade e nem sempre o foi.

Repetiu, em situações diversas, o seu pesar, pela preocupação de que chegasse a todos, mormente aos responsáveis da Igreja, o seu sentimento de humilhação e de esperança. Disse, sem subterfúgios, que o tempo da Igreja era agora de “purificação e de cura”. Noutra circunstância, mas no mesmo contexto, acrescentou que o caminho urgente desta hora é “testemunhar a alegria da fé e a experiência de se sentir amado de Deus”.

Só então têm sentido a purificação e a cura, impossíveis sem humildade e conversão.

Os caminhos da Igreja ao longo da história tiveram páginas de glória, com obras que perduram, pela fidelidade a Jesus Cristo e à sua mensagem. Também aí se escreveram páginas humilhantes, fruto da fraqueza humana e deficiente interpretação da verdade evangélica e das urgências da missão.

Como em qualquer história humana, os êxitos e os fracassos fazem parte da tecedura que o tempo vai entretecendo. Este facto só escandaliza os fariseus, que “coam mosquitos e engolem camelos, vêem argueiros nos olhos dos outros e não dão pelas traves instaladas nos seus olhos”.

O gesto do Papa tem uma grandeza inusitada, que é preciso não iludir na Igreja. Ele faz bem à sociedade para curar, se quiser, as suas mazelas políticas, sociais e familiares.

A Igreja gastou outrora energias sem conta a justificar desvios e fracassos. Confundia-se a santidade de Deus com as fraquezas dos seus membros. A apologética era, muitas vezes, a arguta multiplicação de argumentos e razões para dizer que fora bem o que todos viam ter sido mal e para justificar o injustificável. Se em cada celebração litúrgica, publicamente se confessava pecadora, não aceitava que alguém de fora lhe apontasse pecado. Daí ter sido tão difícil a purificação e tão rara a cura.

Caminhos novos se abriram. Estão aí nas páginas do Vaticano II, um concílio que surgiu da necessidade urgente de conversão pessoal e comunitária e brotou de um coração grande a transbordar verdade, como foi o de João XXIII.

A categoria de serviço às pessoas concretas; o apagar das honras e das precedências, como excrescências de um passado a esquecer; o sublinhar insistente de que não há senão um Senhor e que todos os senhorios humanos na Igreja são espúrios; a tomada de consciência de que o projecto de Deus se concretiza num Povo de irmãos, que Ele considera seu por O conhecer na verdade e O servir santamente; o fazer suas as alegrias e as tristezas, os êxitos e os fracassos dos homens e mulheres do nosso tempo, são, com tantos outros, os caminhos permanentes, abertos à conversão de todos os membros da Igreja e, com maior razão, da hierarquia que existe para os servir.

A Igreja é chamada a seguir, com coragem e serenidade, caminhos novos. A sociedade, cada vez mais individualista e dividida, necessita este testemunho dos crentes. Purificar-se e curar-se, quando o mal existe e não foi prevenido a tempo, não é vergonha nem humilhação. É sinal de grandeza de alma, que sempre se identifica com a verdade, numa atitude humilde de quem não desiste quando falha, nem se inebria com êxitos duvidosos e sabe medir as consequências dos seus actos sejam eles positivos ou reprováveis.