Quando, em Agosto passado, tive a possibilidade de visitar Belém do Pará, na Amazónia Brasileira, a cidade já fervilhava com a iminência do Fórum Social Mundial 2009, marcado para este mês de Janeiro. Posteriormente, acompanhei, com bastante interesse, os preparativos para a realização do grande evento de alterglobalização.
Não me vou deter nesta reflexão, visto que o Correio do Vouga já aludiu ao FSM, através de um excelente artigo pelo Presidente da ORBIS (ver CV de 21 de Janeiro). Contudo, não posso deixar de me referir a outro acontecimento que teve lugar uma semana antes do Fórum de Belém. Trata-se do Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL) que se tem reunido, desde Porto Alegre, na semana anterior à realização de cada FSM. Este ano, Belém do Pará não foi excepção.
O FMTL é, segundo os organizadores, um espaço ecuménico que tenta estimular uma “produção teológica” que possa ajudar “na formação de cidadãos e cidadãs” actuantes “na construção de um mundo novo solidário”.
Com extraordinária ousadia, num mundo cada vez mais afastado da ideia de Deus, o FMTL mostra que o diálogo inter-religioso se apresenta como a me-lhor “alternativa ao fundamentalismo” e que deve contribuir decisivamente para a abolição da pobreza e a implementação da paz.
Alguns críticos vaticinam que este Fórum será o “canto do cisne” da Teologia da Libertação, prática teológica que se desenvolveu na América Latina, sobretudo após o Concílio Vaticano II, como forma de escutar, mais de perto, o grito dos oprimidos e injustiçados. Ora, esse é o grito que mais escutamos em pleno século XXI. O grito de todos os que são excluídos pela globalização neoliberal: os empobrecidos, os marginalizados, os explorados. Mais, hoje a Criação está ameaçada e a Terra, como afirma Leonardo Boff, é “o grande pobre que deve ser libertado junto com os seus filhos e filhas condenados”. Por isso, a Teologia da Libertação, na sua prática teológica libertadora, continua tão actual e pertinente como sempre.
Esta edição do FMTL, que terminou no passado dia 25 de Janeiro em Belém do Pará, mostrou que acreditar que um “outro mundo é possível” é profundamente cristão. Estar onde estão as discussões, que procuram alternativas ao sistema de que o nosso mundo parece estar refém, é essencial para que o Reino de Deus, que tanto sonhamos, come-ce a ser realidade aqui na Terra.
Há quem pense que no Fórum Social Mundial há uma hegemonia de políticas e filosofias de índole ateísta. Nada mais errado. Quase 2/3 dos participantes em cada FSM reconhece que as suas motivações, de militância e activismo, radicam em aspectos místicos, espirituais e, muitos deles, nas suas convicções religiosas! Por essa razão cada FSM conta até com um espaço de discussão neste âmbito – “Cosmovisões e Espiritualidades”.
Realizar o Fórum de Teologia e Libertção antes de cada FSM é uma forma de garantir que teólogos cristãos, de várias confissões, e até de outras religiões, têm um espaço de debate/reflexão onde se definam propostas que depois se levem ao FSM. Mas é, sobretudo, momento de partilha para muitos que dão a vida pelo Reino de Deus, lutando pela justiça e promovendo a Paz.
Aguardo que me cheguem as conclusões do FMTL. Enquanto isso vou-me animando com os ecos de Belém e os depoimentos de quem lá esteve. Num dos painéis do Fórum de Teologia, su-bordinado ao tema “Direitos Humanos e Teologia da Libertação”, o Pe. Edilberto Sena, missionário na região de Santarém do Pará, deixava o seu interpelante testemunho. Ameaçado de morte pelos produtores de soja, devido à sua defesa intransigente dos direitos dos povos amazónicos e à luta pela preservação do meio ambiente, justificava a sua opção radical pelos excluídos da seguinte forma: “A luta por um mundo possível faz a gente arriscar a vida. Uns dizem que a gente é louco, outros que a gente é ousado, ou que estamos perdendo tempo. Eu, sigo tentando”.
Na simplicidade e convicção. Como se requer a quem tem plena Fé n’Aquilo em que acredita.
