Muçulmanos – diálogo ou monólogo?

Nas semanas passadas, a propósito das palavras de D. José Policarpo, muito se ouviu falar sobre «conversão». Igualmente no último Domingo de Janeiro se celebrou a conversão de S. Paulo, num ano litúrgico em que se comemora os 2000 anos do seu nascimento. E em ambos os casos este termo é empregue ligado a um momento temporal, em que um indivíduo, por qualquer motivo, muda de credo religioso. Vimos testemunhos de portuguesas que negavam a posição do nosso Patriarca, dizendo, entre outras coisas, que não tinham sido obrigadas a converterem-se à religião muçulmana, embora seja de ressalvar que a maior parte dos testemunhos positivos fossem com cidadão de Marrocos, onde o islamismo é «soft». Não foi apresentado nenhum caso de casamentos com homens da Arábia Saudita, do Iémen ou do Líbano.

Nesta aparente dialéctica entre as duas principais religiões monoteístas, os comentários foram a maior parte das vezes induzidos pelo momento actual, que está ainda muito influenciado pelo acto terrorista ocorrido em 2001 em Nova York. Mas convém relembrar que ao longo da nossa história as posições já estiveram invertidas. O cristianismo, no passado, teve uma motivação de conversão muito forte, nomeadamente no período das cruzadas, da reconquista da Península Ibérica e da descoberta da América Central e do Sul, tendo sido convertidos ao cristianismo (à força?) todos os povos encontrados na América dita hoje Latina. Isto para não mencionar outros aspectos ainda menos positivos da história do cristianismo, como seja a conversão imposta aos judeus – os chamados “cristãos novos”.

Já os muçulmanos, hoje muito radicais e fundamentalistas na imposição da sua religião em outras culturas, com correntes radicais a exigirem uma «guerra santa» aos costumes ditos «corruptos» da civilização ocidental, tiveram no passado uma visão muito mais moderada, pois muitos se esquecem que há mil anos dominavam praticamente em toda a Península Ibérica (em Lisboa dominaram por mais de 400 anos!) e não impuseram a sua religião. Os povos que encontraram (católicos e judeus) gozavam de liberdade de culto e tinham leis próprias, mas a troco dessas vantagens eram obrigados ao pagamento de dois tributos. Toledo, em Espanha – a cidade das três culturas – foi neste aspecto um modelo no que respeita à tolerância religiosa praticada, nessa altura, pelos árabes.

Os católicos geralmente justificam o seu comportamento pela exortação de Jesus Cristo: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura» (Marcos 16,15). Pergunto: Como é que nos tempos de hoje um cristão poderá agir de acordo com esta sua missão de converter um não cristão? Onde pára o espírito missionário? Ou será que por detrás do agora tão falado «diálogo inter-religioso» está latente uma desistência de querermos anunciar a boa-nova de Cristo a todos os povos?

O problema actual deste diálogo de surdos entre cristãos e muçulmanos está no facto de que a Igreja ter tido uma evolução positiva de tolerância, hoje a maior parte dos estados onde a religião cristã é predominante são laicos, respeitam os direitos universais do homem, enquanto os muçulmanos, depois do seu apogeu no «El Andaluz» se tornaram cada vez mais intolerantes, mais aguerridos e fechados e em muitos países o Alcorão (ou a interpretação que fazem das suas palavras) é lei. Podem ter tido as suas razões, mas os fins não justificam os meios e sobretudo entristece-me a dicotomia entre a nossa passividade quando um íman muçulmano diz o pior possível da nossa cultura e a nossa preocupação quando um qualquer responsável religioso católico deixa escapar um comentário mais «inconveniente» sobre os muçulmanos.

E esta contradição começa a ser preocupante quando nos apercebemos das dificuldades que os cristãos sofrem nos países islâmicos e, depois, vemos o número de árabes a crescer nos países europeus, reivindicando espaços para o seu culto. Sabíam que em Espanha estão a comprar espaços no antigo bairro de Albarracín, em Granada e que em Córdova já reivindicaram para o seu culto a Grande Mesquita árabe, com a consequente retirada da igreja construída no seu seio que o imperador Carlos V autorizou?

Os primeiros apóstolos não tiveram receio de pregar o Evangelho em sociedades hostis. E nós, com os muçulmanos, será que temos medo?

João Manuel Querido