Editorial “Simples como as pombas, prudentes como as serpentes”… Não se trata de criar barreiras ou reservas à confiança nas pessoas. Mas a sentença do Mestre suscita alguma preocupação, quando se abrem todas as janelas do diálogo e da tolerância, no clima do mais límpido desejo de partilhar opiniões e exprimir convicções diferentes, em busca da verdade, recebendo-se, em troca, o impacto de reacções de radical intolerância, por parte de minorias de bloqueio, desrespeitadoras de maiorias com visão diferente.
Assistimos atónitos a esta espécie de “terrorismo cultural”, absolutamente míope, ignorante da história: da fundação da Universidade romana La Sapienza, da comprovada fecundidade cultural da Igreja católica, da sua capacidade de autocrítica com o reconhecimento de lapsos do passado ou do presente. Para além da estrábica apreciação da figura de Bento XVI, a quem, quer se goste ou não, se não pode negar uma invejável envergardura intelectual, indiscutível capacidade filosófica, devotada entrega à busca da verdade. E sempre descontextualizando as suas citações, transformando-as perversamente em afirmações que não fez. E ignorando o seu longo e persistente itinerário em busca de uma mútua cooperação da razão e da fé.
Aliás, o desenrolar das reacções a esta falta de respeito pelo pensar alheio, a esta usurpação do direito de pensar e dizer, quer por parte da comunidade académica, quer por parte de pensadores (as) notáveis, bem como da multidão que acorreu a desagravar o Santo Padre, é bem a expressão do mal-estar instalado no mundo de quem pensa. A liberdade de pensamento e de expressão é a próxima vítima do desleixo de quem deve balizar o “direito à indignação” de grupos minúsculos, sempre que este colide com direitos fundamentais da pessoa.
Nem outra coisa seria de esperar: o mutismo de personalidades conotadas com o laicismo militante, a começar pelos governantes de vários países da Europa, que aí terão encontrado inspiração para as suas cruzadas futuras, na sequência de programas legislativos – sobretudo educativos e culturais – vincadamente avessos ao pluralismo de ideias e convicções, a coberto da fraude da neutralidade.
A abertura e o diálogo supõem o reconhecimento e respeito mútuo: de credos políticos, sociais, culturais e religiosos; de instituições laicas ou confessionais. E pressuposto básico para tal é a capacidade de ouvir os outros, mesmo que seja para discordar a seguir.
O Papa deu o exemplo de quem respeita. E evitou o confronto violento. Mas não deixou de afirmar o seu pensamento, enviando o texto da sua comunicação, o qual demonstrou à saciedade que as suas intenções eram de diálogo. Não deixou a “candeia debaixo do alqueire”, apesar das tempestades anunciadas!
