Testemunhar

Partilhando Há quem não goste de partilhar nem o bem nem o mal, nem haveres nem valores, por muitas e variadas razões, encerrando-se, hermeticamente, no seu ego, no seu casulo.

Partilhar é um bem. Neste fim-de-semana recebi exemplos vindos dos mais diversos quadrantes. De longe, de perto.

De Terras do Demo, despontaram mensagens que eu julgava já da história, dos tempos de há meio século ou mais.

Uma reportagem-mensageira, do JN, anunciava que os lobos voltaram aos povoados e vão uivando, como em antanho. Mas não só uivam como matam animais e põem em perigo as crianças das aldeias. Não assassinam só redis da serra agreste da Nave, porque já vão rareando, mas dizimam póneis, como aconteceu em Vila-Cova-a-Coelheira, entre Castro Daire e Vila Nova do Paiva (a antiga Barrelas do Malhadinhas). E o povo teme que esses felinos, apregoados de extinção, voltem a descer aos povoados, incutindo o terror de há meio século nas gentes daquelas serranias, da Nave ou da Lapa! Que atacam gente, crianças! Isso, isso mesmo!

Esta reflexão fi-la a sós comigo, mas partindo de algo que se estava a passar num ecrã sobre as crianças, de que precisam de ser protegidas, ajudadas, guardadas até dos lobos; a terem vida de criança, sadia, que muitos de nós não pudemos ter. Um bem, um mal?! Para esta nova sociedade de consumismo, o pensar-se o que se foi há 50, 70 anos, é impensável! Certamente! Mas para a maior parte dos que passaram as passas do Algarve ou ouviram uivar lobos, diurna ou nocturnamente, o sabor de se ser criança, nesses recuados tempos, tinha sabor, tinha valor o atravessar-se mesmo desertos, sabendo-se que da outra banda havia uma qualquer Terra da Promissão!

Cá por terras da Ria veio uma vida testemunhada a todos os níveis, multifacetada. Monsenhor João Gaspar, Vigário Geral desta Diocese, a pedido do seu Bispo, fez reflexão ao clero, testemunhando. O historiador, o aveirógrafo, o escritor contou, com a simplicidade que lhe é peculiar, com clareza, o que foram os seus 50 anos de sacerdócio, dos exemplos que o fizeram ser um amante dos verdadeiros valores. Testemunhos, contados sem prosápia de qualquer espécie ou altivez, edificam, constroem, deixam raízes alimentadas em terra ubérrima que fazem frutificar. Quem se deixa arar, colhe e dá. O seu testemunho, de testemunhos, que podem ser também de leigos e para leigos, está impresso. Vale a pena ler, mastigar as pequenas/ grandes coisas. Só as pequenas entram no reino dos que procuram as bem-aventuranças! As grandes obras nascem de minúsculas areias, não movediças, mas sólidas, bem argamassadas.

Outro exemplo-testemunho veio de uma imagem televisiva. Em algures deste País. Um paraplégico lançou um apelo para que se proporcionasse a um seu colega de infortúnio uma cadeira de rodas, igual à que tinha para que esse seu amigo pudesse sair do leito onde permanece retido há anos e voltasse a saborear o ar da rua, o ar das pessoas, a viver e a conviver com todos. Ele, paraplégico, quer que a sua sorte de ter uma cadeira de rodas seja também para o seu amigo! Que gestos tão belos, numa sociedade que tanta gente proclama de egoísta, de consumista!