Testemunhos arrebatadores

A Eucaristia: dom de Deus para a vida do mundo (2) P.e J.M. MARQUES PEREIRA

Segundo artigo, de uma série de três, sobre o Congresso Eucarístico Internacional que decorreu, no Canadá, de 15 a 22 de Junho de 2008

Se as catequeses, com que se iniciavam os trabalhos de reflexão em cada dia, eram momentos importantes de ensinamento, os testemunhos não o foram menos. A organização do Congresso está de parabéns pela excelência das pessoas que convidou para apresentar os seus testemunhos. E pode-se dizer que estes foram subindo de tom e de entusiasmo a cada dia que passava. A própria imprensa não foi insensível a eles com as suas reportagens. Veja-se, por exemplo, o que dizia no dia seguinte o jornal Le Soleil, do Québec, sobre o primeiro testemunho no Congresso, o de Jean Vanier, fundador da Comunidade da Arca: “No seu testemunho vibrante, com um tom convencido e convincente, Jean Vanier enlouqueceu a multidão dos peregrinos no Coliseu, ontem, relembrando-lhes que, se eles querem ser à imagem de Cristo, eles têm de se voltar para os pobres, não para criar instituições que se ocuparão deles, mas para se empenharem em estar em relação com eles”.

Ainda mal refeitos da surpresa do dia anterior, eis que, na terça-feira, Nicola Buttet, fundador da fraternidade eucarística, com formação em Direito, antigo parlamentar suíço, antes de mudar radicalmente o seu estilo de vida e ser ordenado sacerdote, afirmava: “O mundo tem a escolha da transfiguração pela adoração ou a desfiguração pelo consumo, as drogas e outras misérias”. Para ele e na sua experiência pode efectivamente afirmar que “A Eucaristia convida a outra lógica, a do dom de si”. Ele conta a questão que colocou à sua mãe no dia da sua ordenação: como é que ela pôde ocupar-se da educação de uma dúzia de filhos turbulentos, após a morte do seu marido. Ela respondeu-lhe: todos os dias o padre celebrava a Eucaristia para ela às 6 horas da manhã, e sem essa força ela não teria sido capaz. E conta também a história duma jovem drogada, desesperada, a quem foi dada a escolha entre a prisão ou o hospital psiquiátrico. Por diversas razões, ela acabou por escolher a fraternidade eucarística, que a transformou completamente. Concluía então o seu testemunho, afirmando que a Eucaristia, dom de Deus para a vida do mundo, não é simplesmente um slogan de Congresso, mas uma realidade que ele vive todos os dias na sua fraternidade.

Outro testemunho arrebatador foi o de José H. Prado Flores, leigo casado e pai de quatro filhos, de Guadalajara, México, e fundador da Escola de Evangelização S.to André, que já se encontra espalhada por mais de sessenta países. Este apaixonado da Palavra de Deus afirma que a sua primeira tarefa é a de evangelizar, mas que esta tarefa começa precisamente dentro da sua própria família. “É necessário conhecer a Palavra de Deus, é o alimento para o espírito e para a alma. Foi o que me transformou e é o que me impele a falar todos os dias para levar as pessoas a viver a Bíblia”, disse. A concluir o seu testemunho afirmava: “Eu pensava que era bom, mas eu estava longe de Deus na minha rotina. Graças ao encontro de Jesus na minha vida, eu passei do estado de bom cristão ao de filho, ao de herdeiro de Cristo”.

O testemunho mais comovente e vibrante foi, sem dúvida o de sábado, apresentado por Marguerite Barankitse, do Burundi, que nos dizia como desde há 15 anos ela desempenha o seu papel de mãe, recolhendo membros das etnias Hutus e Tutsis em guerra fratricida, na Casa Shalom, obra fundada por ela, depois de a terem obrigado a assistir ao fuzilamento diante dos seus olhos de alguns jovens que ela protegia, em 24 de Outubro de 1993. Marcada por esta experiência, com toda a convicção e autoridade podia exclamar aos bispos e membros das comunidades religiosas que a Eucaristia não se encontra nas suas cartas pastorais nem nos conventos, mas na rua, nas praças: “Abri os vossos arcebispados, abri os vossos conventos, ide às praças, ide ao encontro dos outros, é lá que se encontra a Eucaristia, é lá que vós vereis Deus”.

Depois da explosão de violência e de ameaça de morte a que ela foi sujeita frente a um menino-soldado, decide que é preciso responder ao mal com o amor pelos outros: “A fé e o amor moverão montanhas. Eu sonho com o dia em que os meus meninos serão presidente da República, ministro da Justiça, para contrariar o poder do ódio”. Às crianças, vítimas e órfãs da violência racista, que acolhe na sua Casa Shalon, ela diz-lhes: “Hutus e Tutsis, a vossa nova etnia é a Casa Shalom”. Uma ou outra vez, um dos seus meninos, tornado governador de uma província ou embaixador numa qualquer chancelaria do mundo, diz: “Nós, filhos da Casa Shalom”, marcando assim uma pertença que vai muito para além dos laços étnicos da família biológica.

Eis a força da fé que alimenta esta mulher, sempre sorridente no seu testemunho, que o jornal Libération, num título de artigo a seu respeito, apelidou de louca. Ela afirmara-nos: “O primeiro louco foi Deus, e eu escolhi segui-lo”.