Em cima da linha Há dias recebi uma mensagem de correio electrónico com uma interessante abordagem em relação ao tempo do Natal. Não era de cariz religioso, nem de boas festas, mas dizia respeito à alimentação e aos excessos que, nestas e noutras alturas, todos nós cometemos. Então, essa mensagem dizia que o que nos faz mal não é o que comemos desde o Natal até ao Ano Novo, mas o que comemos e bebemos desde o Ano Novo até ao Natal.
Dir-me-ão que, no tempo de Natal, dada a riqueza da época quer em valores religiosos quer em valores humanos, sociais e familiares, fazer uma abordagem ao comer e beber será despropositado. Todavia, atrevo-me a pensar um pouco sobre o assunto.
Já por várias vezes, sobretudo quando se fala de festas, tais como casamentos, aniversários, convívios, etc., ouvi dizerem-me, esfregando as mãos com ar de muita alegria, esta expressão: “Vamos tirar a barriga de misérias!”. Confesso e compreendo que os dias festivos devem ter “rancho melhorado”, porque também por aí passa a oportunidade de partilhar alegrias e tristezas da vida, quando, sentados a uma mesa, esquecemos o relógio e as toneladas de preocupações que o dia a dia nos vai trazendo.
Apesar de reconhecer e apreciar todos os aspectos positivos que as festas familiares, sociais e religiosas nos proporcionam, causa-me alguma inquietação a forma como se faz a abordagem ao assunto. Até parece que vivemos no meio das maiores carências de ordem económica e alimentar. Talvez até seja por brincadeira, talvez até por hábito. Não creio que se diga do fundo do coração. Porém, se analisarmos os factos, não deixaremos de chegar a uma triste conclusão. Veja-se a forma como as pessoas comem e bebem, repare-se na quantidade de comida e bebida que ingerimos, atente-se na lista interminável de saborosos pratos que constituem as ementas em dias desses. Dá mesmo a impressão de que andamos em falta há muito tempo!
Vamos reconhecer que hoje, a respeito de alimentação, nada nos falta nem em qualidade nem em quantidade. Basta para tanto passarmos os olhos pelas lojas de venda desses produtos. Temos tudo, a toda a hora e ao longo de todo o ano. Na verdade, neste aspecto, não há razão para queixas.
Mas este tempo de Natal, necessariamente, traz-nos à memória a vida (sobrevivência) de muitos milhões de pessoas que têm queixas, muitas queixas, em relação à alimentação nos seus aspectos mais básicos. O banco alimentar contra a fome, que recolhe alimentos aí por todo o lado, não é um passatempo para brincar aos pobrezinhos. Dezenas de instituições estendem, nesta altura, a mão à caridade e generosidade, aos sentimentos e às emoções de milhares de pessoas, que não ficam indiferentes aos gritos da miséria e da fome. E estes, os que verdadeiramente passam fome, e são a maior parte dos habitantes do nosso planeta, precisam mesmo é de tirar a barriga de misérias, e não somente neste tempo tão propício do Natal, mas todos os dias do ano. Sabemos que a fome não vai acabar porque o processo da miséria é diariamente crescente, enquanto que o da ajuda é meramente ocasional.
Quem, passado o Natal, se lembra da multidão incontável dos que precisam? Eles são os refugiados, eles são os leprosos, eles são as crianças a morrer à fome, as crianças abandonadas, maltratadas e violadas, eles são os mártires de uma guerra promovida pelos donos do mundo, eles são os marginais e marginalizados, eles são os idosos, doentes e abandonados, eles são as vítimas do atraso e do subdesenvolvimento. Numa palavra: Eles são os outros, os anónimos, e eles são “apenas” a maioria. Consequência clara de uma (in)justiça social e política absolutamente selvagem, que, ainda por cima, vai convencendo os mais distraídos de ser este o destino inevitável da humanidade.
Bárbara humanidade que come até lhe chegar com o dedo, que estraga a saúde por excessos de comida, e, simultaneamente, ignora e deixa morrer à míngua milhões de seres humanos (? )…
Dar uma ajuda, ainda que pequena, é importante, mas não basta! Apesar das nossas dificuldades económicas, ou da nossa abundância económica – tudo depende da referência que tomarmos – precisamos de criar um forte espírito de partilha continuada e uma consciência social muito apurada.
Ninguém nasceu para ser pobre e para morrer à fome! A tragédia acontece quando quem tem a barriga cheia não quer pensar em quem tem a barriga vazia.
