À Luz da Palavra – XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano B A liturgia deste domingo revela-nos a dinâmica de Deus, que escolhe os mais fracos, para neles revelar as suas maravilhas; pela sua acção faz-nos perceber que a vida está em constante pujança. Para além dos nossos pessimismos e desalentos, Deus constrói a salvação/libertação nas pessoas e no mundo, sem que disso nos apercebamos. A Palavra deste domingo não deixa dúvidas. É um forte apelo à esperança.
Na primeira leitura, Isaías anuncia uma nova era para o povo de Israel, onde a libertação, a alegria e a vida em abundância lhes estão reservadas. “Fortalecei as mãos fatigadas, firmai os joelhos vacilantes; dizei aos corações desanimados: «Sede fortes! Não tenhais medo! Olhai para o vosso Deus».” Todo o universo irá rejubilar: os cegos, os surdos e os coxos serão curados e do deserto brotarão fontes, que tornarão a terra fértil e aprazível. Os medos desaparecerão. É o próprio Jesus que efectiva esta nova criação. Nele cumpre-se literal e cabalmente a salvação anunciada por Isaías.
No evangelho, Marcos narra-nos como Jesus abre os ouvidos e a boca das pessoas surdas-mudas, para que sejam capazes de ouvir e falar, isto é, discernir a realidade e dizer a palavra que a transforma. Estes gestos do Senhor renovam a esperança do povo, sobretudo dos que não tinham vez nem voz. Imersos nesta Palavra, todos nós podemos fazer o gesto e dizer a palavra oportuna que vai transformar esta ou aquela situação, que não se compagina com a mentalidade evangélica. Seremos os continuadores desta nova criação, inaugurada em Jesus. Acomodo-me às situações, ou sou portador de uma palavra que dá vida e transforma?
Na segunda leitura, Tiago, directo e assertivo, mostra-nos com clareza como misturamos facilmente certos favoritismos pessoais com a fé que temos em Jesus Cristo, dando mais atenção “à pessoa que está vestida com elegância” e menosprezando a “pessoa pobre”. Este modo de proceder manifesta péssimos critérios, que se opõem à fé cristã. Para o cristão, existe uma só glória: a do Senhor Jesus. Há sempre o perigo de não sermos tão magnânimos como o nosso Pai celeste, não distribuindo a todos, indistintamente, e segundo as necessidades de cada um, os bens que nos vêm dos gestos salvadores de Jesus. Porque há sempre o perigo de fazermos acepção de pessoas. Vivo o espírito evangélico na minha relação com os outros?
Tudo isto vem a propósito da esperança e da capacidade de sermos positivos diante da própria vida e da dos outros, diante das situações e dos factos. Sem favoritismos. A nossa fé cristã leva-nos, naturalmente, à meditação frequente da Palavra, de modo a que ela nos ilumine a inteligência e nos dê critérios de discernimento, em situações concretas e com pessoas concretas. Proceder de outro modo é negar a nossa condição cristã, é sintoma de falta de maturidade evangélica. É pensar e agir como pagãos e não como crentes.
Leituras do XXIII Domingo Comum -Ano B: Is 35,4-7 a; Sl 146 (145); Tg 2,1-5; Mc 7,31-37
Deolinda Serralheiro
