Todos esperamos que uma cerejeira dê cerejas

Cerca de quarenta pessoas aplaudiram a lição sobre a Vida económico-social, recheada de exemplos tão concretos que permitiram seguir a explanação do Professor Doutor José Manuel Moreira, da Universidade de Aveiro (UA). Foi no dia 27 de Abril, na Galeria dos Morgados da Pedricosa, numa das sessões promovidas pela Paróquia de Nossa Senhora da Glória, na comemoração dos 40 anos da publicação do documento Gaudium et Spes.

Está na natureza de uma cerejeira dar cerejas. Este é um princípio que condiciona a priori a nossa existência. Ora, na vida em sociedade, há circunstâncias que não estão na natureza imediata das coisas. Ou seja, há efeitos involuntários que não são previsíveis. Como exemplo, o Professor da UA apresentou o problema dos subsídios: apoiar empresas que não conseguem resultados pode parecer uma solução positiva; todavia, essa atitude implica a impossibilidade de contribuir para o crescimento das que cumprem as regras. Num ápice, um país é levado à miséria com uma política de subsídios.

O Professor apresentou um esquema triangular, em que a Economia de Direito e a Economia de Mercado surgem paralelamente, ambas assentes na Sociedade Civil, que se rege por uma dinâmica activa e responsável. Associando Direito e Mercado, insistiu na ideia de que as leis condicionam a economia, obtendo-se um resultado justo se se actuar de forma justa. Quando um árbitro entra em campo, exemplificou, é a pessoa mais solitária daquele espaço, pois é a única que não apoia nenhuma das equipas em jogo. O que faz? Primeiro, não pode ter medo de estar sozinho, depois tem de zelar pelo cumprimento das regras do jogo, independentemente do resultado final. Este pressuposto foi aplicado à economia pelo orador, quando focou a corrupção dos países pobres, que pautam a sua actuação pela ausência de cumprimento das regras do jogo.

José Manuel Moreira constatou que, hoje, se tende a apagar o individual, responsabilizando-se unicamente o social. Todavia, para este Professor de Economia e de Ética, individual e social não podem ser apresentados como diametralmente opostos. A concepção de que o homem é incapaz por natureza (é “mau” e não “bom” por natureza), conduz à ideia de que é o Estado que o tem de orientar, e ajudá-lo a controlar-se. Sabe-se, contudo, que os países em que o Estado intervém para corrigir as desigualdades são aqueles onde há mais problemas. Defendeu que se deve incentivar o corporativismo e rejeitar o individualismo.

Questionado sobre a globalização, o palestrante referiu não ser possível parar o processo. As consequências são hoje globais, independentes da nossa vontade.

Com vários exemplos, José Manuel Moreira contrariou a ideia, hoje tão enraizada, de que o esforço e o trabalho não são importantes: é mais fácil engordar, do que cuidar da nossa saúde; a limpeza implica um maior esforço, do que deixar acumular a sujidade; respeitar as regras do jogo exige maior concentração, do que o seu desrespeito. Os resultados da ausência de esforço serão mais negativas do que a priori se imaginavam.

A rematar a sua lição, o Professor da UA relembrou que “as coisas não caem do céu”. A ambição com regras é um motor importante. Que escolhas fazemos: “Quero ter tantas casas como o meu vizinho tem” ou “quero que o meu vizinho tenha menos casas do que tem”?

Teresa Correia