Todos nós!

O tema escolhido para a Semana da Vida “ESCOLHE A VIDA E VIVERÁS” é oportuníssimo. É que vivemos um tempo em que a cultura envolvente nos pressiona a escolher aspectos muito parcelares da vida – ter, prazer, poder, êxito, estrelato… -, que nos deturpam completamente a visão equilibrada da pessoa humana, do mundo que é colocado ao nosso dispor, das relações sociais… E tudo isto resulta na aparente predominância da “cultura da morte” sobre a “cultura da vida”.

A carta “O Evangelho da Vida” do Bem-aventurado João Paulo II, toca no cerne da questão: “Quando se procuram as raízes mais profundas da luta entre a «cultura da vida» e a «cultura da morte», não podemos limitar-nos à noção perversa de liberdade referida (poder absoluto sobre os outros e contra os outros – EV 20). É necessário chegar ao coração do drama vivido pelo homem contemporâneo: o eclipse do sentido de Deus e do homem, típico de um contexto social e cultural dominado pelo secularismo (…) não deixa às vezes de pôr à prova as próprias comunidades cristãs (EV 21).

Essa é a grande questão: vive-se e (des) educa-se sem quaisquer valores que sejam referenciais do transcendente. E torna-se impossível, nessas circunstâncias, vislumbrar dimensões humanas que não sejam as materiais e quantificáveis, as produtivas e rentáveis, tudo aquilo que configura o ser humano como algo descartável.

Esfumando-se a convicção do Criador e Providência, do divino, a conferir horizontes ao ser humano que estão muito para além do espaço e do tempo, facilmente se instala a lei do mais forte, o feroz instinto de dominação e posse, a manipulação sem escrúpulos de si mesmo e dos demais.

Como aliás o refere o mesmo texto de João Paulo II: “Sem o Criador, a criatura não subsiste. (…) Antes, se se esquece Deus, a própria criatura se obscurece” (GS 36) (EV 21). O que conduz fatalmente a um materialismo prático, a um egoísmo feroz, a um utilitarismo e hedonismo arrasadores da existência humana.

Este é o caminho que justifica todas as mentiras, os desgovernos, as corrupções, os compadrios, as despudoradas explorações dos mais fracos com benesses que são migalhas entorpecentes. Com os mais requintados malabarismos de quem distribui felicidade às mãos cheias à multidão dos pobres, que foi privada das referências que as dignificariam e lhes dariam não só a força para resistir, mas a ousadia de desmascarar e recusar.

E todos nós, e nós os cristãos estamos no cerne do conflito. “Todos estamos implicados e tomamos parte nele, com a responsabilidade iniludível de decidir incondicionalmente a favor da vida” (EV 28). Com as convicções e corajosas atitudes pessoais; e marcando presença forte e destemida nos locais de decisão!