Todos somos responsáveis uns pelos outros

À Luz da Palavra – XXIII Tempo Comum – Ano A A liturgia deste domingo leva-nos a reflectir sobre a nossa relação com os irmãos e irmãs que nos rodeiam. Afirma, claramente, que ninguém pode ficar indiferente diante daquilo que ameaça a vida e a felicidade de um irmão ou irmã e que todos somos responsáveis uns pelos outros pela prática do amor fraterno. A liturgia exorta-nos nos veementemente a praticar uma das mais sublimes formas do amor que é a «correcção fraterna».

A primeira leitura apresenta-nos o profeta como uma “sentinela”, colocada por Deus na casa de Israel. Este profeta é chamado a estar atento aos projectos de Deus e à realidade do mundo, a aperceber-se daquilo que está a destruir os planos de Deus e a impedir a felicidade das pessoas. E como sentinela que é deve alertar, então, a comunidade para os perigos que a ameaçam. Hoje, pelo baptismo, Deus continua a suscitar profetas/sentinelas, que somos todos nós, para alertarem o mundo e as pessoas contra os perigos que correm. Somos chamados a denunciar tudo o que contradiz os projectos de Deus. Para isso, precisamos de auscultar Deus e de conhecer a sua vontade pela oração. Encontro tempo para aprofundar a minha a relação com Deus, meditar a sua Palavra, e perceber a sua vontade para mim e para o mundo?

O evangelho deixa clara a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão e irmã a tomar consciência dos seus erros, através da «correcção fraterna». Esta tem as suas regras evangélicas. A primeira é conversar com o irmão; se isto não resultar, a segunda consiste em pedir a uma terceira pessoa que ajude a um entendimento, de modo a ficarem em paz; na terceira recorre-se à autoridade, se necessário. O objectivo primordial é “ganhar” o irmão ou a irmã, em ordem a uma reconciliação, fruto maduro de um diálogo sincero e aberto, que nasce do amor. Sobretudo, é preciso que a nossa intervenção junto do nosso irmão e irmã não seja guiada pelo ódio, pela vingança, pelo ciúme, pela inveja, mas seja guiada pelo amor.

O que é que nos leva, por vezes, a agir e a proceder à «correcção fraterna»: o orgulho ferido, a vontade de humilhar aquele que nos magoou, a má vontade, ou o amor e a vontade de ver o irmão e a irmã reencontrar a felicidade e a paz?

Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Roma, e a nós, hoje, a colocar no centro da existência cristã o mandamento do amor. Trata-se de uma “dívida” que temos para com todos os nossos irmãos e irmãs, e que nunca estará completamente saldada. As nossas comunidades cristãs, a exemplo da primitiva comunidade cristã de Jerusalém, são chamadas a ser comunidades fraternas, onde se evidenciam as marcas do amor.

Os que estão de fora olham para nós e dizem que nós somos diferentes, somos uma mais valia para o mundo, porque amamos mais do que os outros? Quem contempla as nossas comunidades, descobre as marcas do amor, ou as marcas da insensibilidade, do egoísmo, do confronto, do ciúme, da inveja? Os que vêm de fora, os doentes, os necessitados, os débeis, os marginalizados são acolhidos nas nossas comunidades com solicitude e amor?

Domingo do XXIII do Tempo Comum: Ez 33,7-9; Sl 95 (94); Rm 13,8-10; Mt 18,15-20

Deolinda Serralheiro