Encíclicas Sociais: Laborem Exercens (1) João Paulo II dedica a primeira das suas três encíclicas sociais ao trabalho – a chave da questão social, bem fundamental para a pessoa, factor primário da actividade económica.
O trabalho humano e o desenvolvimento dos povos (que, obviamente, se alicerça no trabalho dos seus membros) são os dois fios condutores a que se agregam todos os documentos da Doutrina Social da Igreja. Neste aspecto, a Igreja tem algo em comum com o marxismo, visto que põe o trabalho no centro das questões sociais, mas não retira daí as mesmas conclusões.
Logo no primeiro parágrafo João Paulo II afirma que trabalhar é muito mais do que uma questão individual de ga-nhar o sustento: “Mediante o trabalho [«Laborem exercens» – LE] deve o ser humano ganhar o pão de cada dia, contribuir para o progresso da ciência e da técnica, e sobretudo para a incessante elevação cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade com os outros irmãos”.
Ao longo do documento “delineia uma espiritualidade e uma ética do trabalho, no contexto de uma profunda reflexão teológica e filosófica” (CDSI, 101). Sem nunca perder de vista o ideal do pleno emprego (“encontrar um emprego adaptado para todos aqueles que são capazes de o ter”) e os problemas actuais do trabalho (actuais em 1981 e actuais hoje), João Paulo II apresenta uma “espiritualidade do trabalho”, do Génesis à Ressurreição de Cristo. O Papa fala da mecanização e automatização do trabalho, da “mercadoria” em que não deve transformar-se, dos sindicatos, do salário justo, do trabalho dos portadores de deficiência, da emigração.. para depois apresentar uma espiritualidade que, em resumo afirma que trabalhar é “participar na obra do Criador”, é «colaborar» com Deus. Mais alta a dignidade do trabalho não podia estar. E assim o desemprego, além de drama humano, é drama teológico.
A LE estava para ser publicada no dia 15 de Maio de 1981, quando se completavam os 90 anos da “Rerum Novarum”, mas foi adiada para 14 de Setembro, visto no dia 13 de Maio João Paulo II ter sofrido o atentado na Praça de São Pedro.
Apesar de publicada pelos 90 anos da RN, nem uma única vez cita a encíclica inaugural. Escrita por um Papa que chegou a ser operário, a LE marca um estilo novo de doutrina social.
J.P.F.
Estado e desemprego
O desemprego é sempre um mal e, quando chega a atingir determinadas dimensões, pode tornar-se uma verdadeira calamidade social. Para fazer face ao perigo do desemprego e para garantir trabalho a todos, de trabalho indirecto [pessoas e instituições que determinam o sistema sócio-económico] devem prover a uma planificação global, que esteja em função de um «banco» de trabalho diferenciado; devem dispensar atenção, ainda, à organização correcta e racional do trabalho que se desenvolve em tal «banco». Esta solicitude global, em última análise, pesará sobre os ombros do Estado, mas ela não pode significar uma centralização operada unilateralmente pelos poderes públicos. Trata-se, ao contrário, de uma coordenação justa e racional, no quadro da qual deve ficar garantida a iniciativa das pessoas, dos grupos livres, dos centros e dos complexos de trabalho locais.
Laborem Exercens, 18
