Dias positivos 1. A propósito da entrada de Portugal na CEE, da globalização, das importações chinesas, da competitividade, do alargamento da União Europeia a Leste, do défice… ouve-se sempre o mesmo imperativo: É preciso trabalhar mais, produzir mais e melhor. Dizer só que “é preciso trabalhar mais” não chega. Mesmo que seja preciso trabalhar mais, é preciso fazê-lo com inteligência, criatividade e melhor organização. Qualidade, e não apenas quantidade.
2. Este “trabalhar mais e melhor”, quando se aproximam os dias quentes e apetece antes estar na esplanada ou na praia, faz lembrar uma curiosa lição a um grupo de jovens da diocese, corria o ano de 1994. Manuel Alte da Veiga, que agora vai coordenar a pós-graduação sobre Família, do ISCRA, falava a convite do Secretariado da Pastoral Juvenil. Dizia o professor da Universidade do Minho que os povos do sul da Europa, maioritariamente latinos, entendiam o trabalho de um modo distinto do dos povos do norte da Europa, onde predominam as línguas germânicas. Para estes, a palavra “trabalho” (“work”, em inglês), tem origem na germânica “werke”, que significa energia, força. E é fácil perceber: nos países frios do norte da Europa, trabalhar aquece. O contrário de trabalhar é ficar com frio, sem energia, sem calor. Trabalhar é fundamentalmente positivo.
Ora nas línguas latinas, “trabalho” (ou “travail”, em francês, e “trabajo”, em espanhol) tem origem no latim “tri-palium”. E o que era o “tripalium”? Era uma tortura que consistia em enfiar três pauzinhos entre as unhas e a polpa dos dedos. Nada de agradável, portanto. Onde o clima é quente, o trabalho é uma tortura. Trabalhar é algo de negativo.
3. A relação entre clima e modo de entender o trabalho parece uma explicação demasiado simplista para o subdesenvolvimento dos povos dos países quentes, mas a verdade é que é levada a sério, como por exemplo pelo conceituado estudioso do desenvolvimento dos povos, David S. Landes (em “A riqueza e a Pobreza das Nações” defende que a produtividade em países como a Índia e o Brasil aumenta com o número de aparelhos de ar condicionado).
4. Não partilhando uma visão negativa do trabalho, reconheço que muitas pessoas fazem o que não gostam, por necessidades familiares, porque não quiseram ou não puderam estudar mais (mas podem estudar agora!), porque receiam procurar novo trabalho, porque não conseguem colocação, porque são mais bem pagas a fazer o que não gostam do que outra coisa… Mas custa-me a entender que persistam anos e anos num trabalho ou numa empresa de que não gostam, ansiando pelos fins-de-semana, feriados ou férias. Mais contribuem para o conceito de trabalho-tortura.
5. É errada a ideia de que o trabalho, em sentido teológico, é uma consequência do pecado dito original. Nas primeiras páginas da Bíblia, o ser humano é cooperador de Deus antes do pecado (Gn 1,27: “Enchei a Terra e submetei-a”, e Gn 2,15: “O Senhor Deus levou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar…), o que leva João Paulo II a afirmar, na encíclica Laborem Exercens (Mediante o trabalho – carta aberta sobre o Trabalho, dirigida a todas as pessoas de boa-vontade), que “a humanidade, criada à imagem de Deus, participa mediante o seu trabalho na obra do Criador”. Trabalho é colaboração com Deus na imensa empresa da Criação. O cristão encontra aqui uma motivação profunda para trabalhar com gosto… ou procurar um trabalho de que goste.
