Questões Sociais A revisão do Código do Trabalho veio intensificar as lutas laborais. Numa observação superficial, a luta fundamental é a do trabalho contra o capital, e vice-versa. Porém, numa leitura mais atenta, tornam-se patentes outras lutas.
Um delas é a da ciência e tecnologia contra o trabalho, sobretudo quando elas se associam ao capital. A ciência e a tecnologia proporcionam condições para a diminuição de postos de trabalho, chegando mesmo à automação, contribuem para o fosso abissal entre os trabalhadores altamente qualificados – do «núcleo duro» das organizações – e os outros – «periféricos» e tratados como não qualificados, mesmo quando possuem habilitações escolares elevadas e realizam trabalhos de alta responsabilidade. A ciência e a tecnologia investem muito mais, embora indirectamente, na dispensabilidade e exploração do trabalho do que na valorização do mesmo.
Outra luta é a que se processa contra as empresas de menor dimensão, de maior fragilidade e que procuram cumprir a lei. Tais empresas têm contra si as reivindicações sindicais, a concorrência das empresas mais poderosas e das que actuam à margem da lei. Nalguma teoria laboral, elas reúnem condições para serem aliadas naturais do movimento sindical; no entanto, isso não tem acontecido, verificando-se até que as reinvindicações sindicais as atingem mais a elas do que às outras.
Uma terceira luta – quase só perceptível por quem está no terreno – ocorre entre empresas e trabalhadores cumpridores da lei e das normas éticas, e as empresas e os trabalhadores não cumpridores. Quem cumpre fica a perder, com muita frequência, perante quem não cumpre.
Face a estas e a tantas outras lutas, bem se compreende que a doutrina social da Igreja tenha reconhecido que «o trabalho (…) se encontra mesmo no centro da «questão social» (João Paulo II, na encíclica «Laborem Exercens», nº. 2). Bem se compreende também que ela não considere, como vitória final desejável, a do trabalho contra o capital nem vice-versa. Considera, sim, como luta final, actual e mais profunda, o esforço cooperante e permanente a favor da realização (salvação) de cada pessoa, em justiça e paz, e da promoção do bem comum universal. A maior dificuldade com que esta orientação se defronta na prática é a do reconhecimento efectivo de que, «por detrás» do trabalho e do capital, «há homens, os homens vivos e concretos» (ibidem, nº. 14). A esta dificuldade associa-se a do reconhecimento de que «o trabalho é, em certo sentido, inseparável do capital» (nº. 15) e de que o capital acumulado «é produto do trabalho de gerações» (nº. 14).
