Três perguntas e respostas sobre a Bíblia

Qual é o nome de Deus?

A pergunta tem sentido pelo facto de algumas correntes religiosas insistirem no nome de Deus como sendo Jeová, enquanto Bíblias católicas apresentam Yahweh (Javé) ou Senhor. Em que ficamos?

O Antigo Testamento começou por ser escrito em língua hebraica, língua que só tinha consoantes, tal como outras línguas da época. Sendo assim, a palavra que aparecia era simplesmente YHWH. Como se lia? Não existe uma certeza, visto faltarem as vogais. Só no séc. VII d.C. é que a escola rabínica de Tiberíades introduziu um sistema vocálico para não se perder o texto. Mas temos alguns indícios…

O respeito pelo nome de Deus («não invocar o nome de Deus em vão»), dado o seu carácter sagrado e para não ser usado como elemento mágico, como acontecia entre os povos vizinhos, levou progressivamente a que os hebreus deixassem de o pronunciar. Daí que, no séc. III a.C., só o Sumo-sacerdote o invocava uma única vez por ano na bênção ao povo no final da Festa da Expiação e começo do Ano Novo.

Por esta altura, surge a tradução grega da Bíblia, chamada Setenta, feita por mestres judeus em Alexandria para a enorme colónia judaica aí residente, verificando-se que onde aparece YHWH, a tradução grega apresenta Kyrios (= Senhor). Isto vem confirmar o uso de se referirem a Deus simplesmente como «Senhor» (em hebraico: “adonay”).

Os rabinos do séc. VII d.C. estão nesta linha: mantiveram as consoantes da palavra mas colocaram as vogais da palavra hebraica “adonay”. A finalidade é indicar que se deve ler Adonay = Senhor. É isto que qualquer judeu ainda hoje entende e faz. Nenhum judeu lê Yehowah.

Temos alguns indícios de como seria a pronúncia. O primeiro vem-nos da aclamação Hallelû-Yah (Louvai Yah). O segundo é tirado dos nomes de pessoas: Isaías (Yiša‘iyāhû – “Yahû é salvação”); Sofonias (Sefanyah – “Yah escondeu”); Abdias (‘Oba-diyāhû – “servo de Yahû”). O terceiro é uma referência aos gregos que achavam piada ao facto de o nome do Deus dos judeus ter apenas vogais.

Estes indícios levam a concluir que o nome divino seria Yahaweh ou Yahweh.

Quantos são os Evangelhos?

Chegaram até aos nossos dias dezenas de escritos a que poderemos chamar “evangelhos”, pelo facto de narrarem acontecimentos que têm a ver com Jesus. Porquê, então, o Novo Testamento só apresenta quatro?

A primeira resposta tem a ver com o tempo em que foram compostos. A maior parte deles surgem a partir de meados do séc. II d.C. e seguintes. A segunda resposta prende-se com os autores: a comunidade primitiva aceitou como textos sagrados aqueles que foram escritos por apóstolos (Mateus e João) ou intimamente ligados a apóstolos (Marcos a Pedro; Lucas a Paulo). Outros textos com nomes de apóstolos não foram considerados porque efectivamente são tardios e não foram escritos por esses apóstolos. Outro aspecto prende-se com a doutrina, apresentada por muitos «evangelhos» tardios, de carácter herético. O Concílio Vaticano II insiste neste aspecto: «A Igreja sempre afirmou e afirma que os quatro evangelhos são de origem apostólica…» (Dei Verbum, n. 18).

Os testemunhos escritos que nos chegam do séc. II, alguns deles muito curiosos, indicam-nos bem o critério de escolha. Recordemos apenas o de S. Ireneu (130-200):

«É impossível que os evangelhos sejam em número maior ou menor do que são. Pois como há 4 regiões no mundo em que vivemos, e 4 ventos dos 4 pontos cardeais, e como por outra parte a Igreja está disseminada por toda a terra, e coluna e suporte da Igreja é o evangelho e o espírito de vida, resulta que ela tem 4 colunas que de todas as partes respiram incorruptibilidade e vivificam os homens. Donde é manifesto que o Verbo, artífice de todas as coisas, que está sentado sobre os Querubins e unifica tudo, quando se manifestou aos homens, deu-nos um evangelho quadriforme, unificado por um só espírito… De facto não conhecemos a economia da nossa salvação por meio de outros senão daqueles através dos quais nos chegou o evangelho. O qual evangelho eles pregaram então oralmente, depois por vontade divina transmitiram-no-lo por escrito… Mateus depois entre os Hebreus publicou um evangelho escrito na língua deles, enquanto Pedro e Paulo evangelizavam em Roma e fundavam a Igreja. Depois que estes partiram, Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, também nos transmitiu por escrito as coisas pregadas por Pedro. Também Lucas, seguidor de Paulo, compôs um livro, o evangelho pregado por aquele. Depois João, o discípulo do Senhor, aquele que repousou sobre o seu peito, também ele publicou um evangelho durante a sua estadia em Éfeso da Ásia… É tanta a certeza a respeito destes evangelhos que os próprios hereges dão testemunho deles, e a partir deles cada um procura encontrar uma confirmação da própria doutrina» (Contra os Hereges, S. Ireneu, anos 130–200).

Dos testemunhos resulta que no séc. II homens de tão diversa proveniência e educação, representantes de tradições de comunidades distantes umas das outras, conhecem e citam só os 4 evangelhos e os 4 autores tradicionais. Notar particularmente:

– A convergência constante sobre os mesmos nomes como autores dos evangelhos; o que mostra como a atribuição dos 4 evangelhos a Mateus, Marcos, Lucas e João é já no séc. II uma coisa aceite, antiga e venerável.

– A conexão dos 4 autores com o grupo apostólico. O que fundamenta a autoridade destes livros não é tanto o facto de terem sido escritos por personagens particularmente qualificadas, mas o facto de por detrás deles estar a pregação apostólica e alguma pessoa particular do grupo apostólico. Mais do que autenticidade precisa do autor-escritor, tem valor o nexo dos evangelhos com a pregação apostólica autorizada e a capacidade de fixá-la com autoridade, que justificam precisamente a aceitação de vários escritos diferentes sobre o único tema central da fé: a vida, morte e ressurreição de Cristo pregadas como salvação dos crentes.

Os Evangelhos são história ou «historinhas»?

Ao olhar para os quatro evangelhos que o Novo Testamento nos apresenta, encontramos muitas coisas diferentes acerca do mesmo assunto e, por vezes, até contradições. Os evangelhos são história ou «historinhas»?

A resposta é simples: não são uma coisa nem outra. Os evangelhos não são uma relação filmada das obras de Jesus nem o pretendem ser. Porque os evangelhos não são uma crónica; são o anúncio da salvação universal realizada por Cristo. Ora, o anúncio da Boa Nova não se pode fazer à maneira duma biografia no sentido moderno. Contudo a narração evangélica reproduz a essência da pregação e da actividade de Jesus terreno, graças à fidelidade do modo de transmitir dos judeus.

Apesar de tudo, não é impossível penetrar na vida de Jesus por meio duma cuidadosa investigação crítica e puxar à superfície os factos e ditos que a igreja primitiva achou oportuno conservar. Os evangelistas, mesmo vendo tudo sob a luz da fé, investigam cuidadosamente os factos (cf. Lc 1,3). As condições requeridas nos candidatos ao apostolado e a dar testemunho da ressurreição exigiam que fossem «dentre os homens que nos acompanharam durante todo o tempo que o Senhor Jesus viveu no meio de nós a partir do baptismo de João até ao dia em que nos foi arrebatado para o Alto» (Act 1,21-22).

Há que exaltar o carácter dos evangelhos. Não são crónica-biografia, e ainda bem que o não são. O género literário «evangelhos», embora seja um tormento para o historiador, são a melhor forma de expressão para o teólogo e para o cristão.

A pregação de Jesus ficou propositadamente incompleta, deixando muitas questões em aberto. Jesus, por sua parte, não ignorava a situação dos apóstolos: não entendiam, nem podiam entender muitas coisas antes da sua morte e ressurreição; os mesmos apóstolos e evangelistas o confessam sinceramente (Mc 9,32; Lc 9,45; Jo 2,22). Por isso Jesus omite muitas coisas, porque ainda não estavam mentalizados (Jo 16,12). Não entendem as predições (Jo 16,16-19). Jesus prevê e provê com o envio do Espírito, em nome do Pai, ou seja, em virtude da sua ressurreição; o Espírito da Verdade lhes ensinará toda a verdade (Jo 15,26; 16,13-15).

A vida de Jesus, sendo tão especial, precisava de uma interpretação. E ninguém estava em melhor condição para isso do que os apóstolos. Depois da ressurreição a pregação apostólica não usava simplesmente as palavras de Jesus, pois o conhecimento sobre a sua pessoa e doutrina tinham progredido. Por outro lado o cristão devia estar certo de que o anúncio apostólico era uma legítima e fiel interpretação da Pessoa e da obra de Jesus. Daí a necessidade de compor os evangelhos e de informar o crente sobre as palavras e os factos do Jesus histórico. Isto, porém, só era uma parte da fé em Cristo ressuscitado.

As palavras e os factos de Jesus tinham que ser completados pela função interpretativa das Escrituras e explicadas à luz do Espírito do Ressuscitado. O que os Evangelhos nos dão mediante uma versão fiel do Jesus histórico já está completo na sua interpretação. A Igreja nascente completa esta interpretação, não independentemente do Jesus histórico, mas como um prolongamento na história do acontecimento único que é a pessoa de Cristo.

A fé interpreta, acrescenta. Mas nem por isso está em pior condição do que a ciência. A observação puramente natural, imparcial, da vida de Jesus impele-nos a ir mais adiante e a tirar conclusões. E a conclusão tirada pela fé é, mesmo na linha da ciência, a mais lógica, e explica aquilo que a ciência não pode explicar. Mas não é uma fé cega. Dá-me a certeza (não a evidência!).

J. Franclim Pacheco

Página da responsabilidade do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA). Sai na 4.ª quarta-feira de cada mês.